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Renata Spanhol (comparação)

Publicado por epifabiconia em Abril 7, 2008

COZINHANDO RECEITAS, ESCREVENDO PALAVRAS

 

   Escolher os melhores ingredientes, saber a hora certa de colocar cada coisa, cortar as partes que não estão boas, trabalhar bem para que tudo fique homogêneo, deixar descansar. Para crescer a massa e para melhorar o texto. Escrever e cozinhar podem parecer artes totalmente distintas, mas, ao preparar uma receita ou ao fazer um texto, encontramos um mesmo princípio: a junção de ingredientes e de idéias diferentes – muitas vezes inconciliáveis – que se transformam em algo completamente novo, quase como num passe de mágica, mexendo com as emoções de quem faz e de quem degusta essas misturas.  

  Quando escrevemos, colocamos tudo o que somos e estamos sentindo no papel. Para o texto dispensamos tempo, energia e dedicação, experimentando cada palavra, preparando letra por letra para chegar ao resultado final mais delicioso possível. Erasmo de Rotterdam disse que o gosto pela escrita cresce à medida que se escreve e, nos arredores da cozinha, não é diferente. A cada receita que se acerta, como em cada texto em que a expressão de nossas idéias se concretiza, a vontade de descobrir outros sabores e a ânsia por vencer novos obstáculos se intensifica. É como ter sucesso com aquela massa de bolo que nunca cresce uniforme ou com aquele assunto sobre o qual não conseguimos nos expressar com habilidade.

   Mesmo parecendo ser próximos, as diferenças entre culinaristas e literários também podem ser percebidas. O ato de mexer com as panelas pede a atenção constante de quem o executa. Um segundo de distração pode significar o fim de um prato. Os escritores permitem-se uma liberdade maior com sua arte, podendo ficar dias, até anos deixando seus escritos em banho-maria, retomando-os sem o menor prejuízo. Enquanto existem cozinheiros que só se sentem confortáveis criando na própria cozinha, com suas facas e seu fogão, há escritores que conseguem escrever em qualquer lugar, basta que tenham uma caneta e um pedaço de papel em mãos.

   A culinária e a escrita são apaixonantes. Apesar de uma ou outra diferença aparecer, é impossível não perceber o ponto central que as entrelaça. Quem já não ficou com os olhos cheios de lágrimas lendo uma passagem de um livro? Quem nunca voltou aos bons tempos da infância ao comer um doce que era preparado pela avó? Tudo o que cozinheiros e escritores transmitem através de suas mãos tornam as experiências, seja com panelas, seja com canetas, únicas e necessárias para que estes cheguem ao objetivo de suas atividades: a expressão de emoções.

 

 

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