Epifabiconia

Os melhores textos da Fabico estão aqui!

Demétrio Pereira (crônica)

Publicado por epifabiconia em Abril 11, 2008

ACREDITE SE QUISER

 

            - Bah, mãe, meu filho eu não vou batizar.

            Como assim? O guri, após muitos anos de criação “para o bem”, vem com esse tipo de afirmação dos diabos e condena o neto? O futuro celestial da família está comprometido. Não é fácil para integrantes de gerações ferrenhas na prática religiosa aceitarem idéias desapegadas como essa. De qualquer forma, tive que dizer à mãe. Filho meu não vai ser batizado. Não vou nem anunciar punições do “Papai do Céu” para traquinagens diversas. Aliás, nem do Papai do Céu vou falar. E isso, sob a perspectiva de muitos religiosos, pode significar a condenação da criança a uma conduta depravada, aleijada de certos valores morais que apenas a religião poderia prover. Para derrubar essa visão, entretanto, basta observarmos as atrocidades cometidas por pessoas ditas espiritualizadas ao lado do perfil solidário e politicamente correto de outras tantas ditas ateístas. Platão, n’A República, já discutia ética e o “bem” sem precisar acreditar em um deus inquisidor. Mas calma lá, que não quero entrar nesse mérito. Antes de defender um lado ou outro, vejo teístas e ateístas como farinha do mesmo saco.

 

            É, eu decretava a mim mesmo larga impopularidade ao pelear contra a criação religiosa, e agora cavo de vez meu buraco declarando guerra a quem estava simpatizando com a coisa. Mas a idéia é simples. Afirmar ou negar a existência daquilo que desconhecemos aponta para o mesmo erro. Parece puro debate ideológico, mas o perigo reside, justamente, no domínio nocivo que qualquer ideologia, enquanto incontestável, pode causar em um indivíduo e, assim, ser refletido no meio social. É assim que o embate entre cristãos e muçulmanos transforma concepções diferentes de mundo e existência em guerras que atravessam séculos, cada qual com sua justificativa, sempre um misto de política e espiritualidade. É assim que a Igreja Católica tentou – e continua tentando – frear a ciência e a divulgação do conhecimento científico, através de práticas completamente avessas aos serenos sermões do bondoso e conciliador menino de Belém. É assim que, em certos países, moças têm seus clitóris mutilados logo ao nascer, pois assim a religião local postula. Cabe reparar na naturalidade com que muitas religiões oprimem as mulheres, pois, em Estados onde política e espiritualidade estão conectados, nada mais fácil para o homem, detentor do poder, tornar comum e aceitável aquilo que apenas convém aos seus interesses – inclusive, nesse caso, o desrespeito e o tolhimento da dignidade da mulher.

 

            Ah, meu filho eu não batizo. Mas nem por isso guiaria alguém pro ateísmo. Pelo menos em nível individual, estão comprovados cientificamente os benefícios da fé. Fé em qualquer coisa. Fé n’O Segredo, que seja. Mesmo com a incerteza da existência real daquilo em que acreditamos – se tivéssemos certeza, não acreditaríamos, saberíamos – uma mentira agradável muitas vezes vem a calhar. A mim parece que, coletivamente, o ateu não representa tanto perigo quanto o fanático religioso. O ruim dele é se tornar um chato, rindo de longe de coisas que julga absurdas, mas caindo na mesma armadilha do extremismo ideológico. Se levar uma crença ao extremo culmina em guerras e demais violências, por outro lado, valorizar exacerbadamente uma descrença, no mínimo, estreita a visão do indivíduo e o impede de aproveitar o que as tantas doutrinas religiosas têm para oferecer. Ou seja, o mal do ateu não é tão visível, mas a intransigência, por si só, já é um mal.

 

            Ora, se não batizaria meu filho é porque, não tendo certeza das coisas do mundo e do além-mundo, seria violência comprometer a mente alheia e submetê-la a certezas incertas. Em temas como esse, cabe a cada pessoa, ao seu próprio tempo, encontrar o que lhe serve como verdade e reconhecê-la como verdade apenas para si, não para outros. Ao contrário do que posso ter feito parecer, não me incomodam os crentes nem os descrentes. Caio agradavelmente no chavão “se faz bem, que mal tem?”. Ainda assim, vejo com imenso desprezo a displicência com que se levam recém-nascidos para serem aceitos aqui e acolá como filhos deste ou daquele, sendo que a pobre criança mal tem noção da própria existência. É um desrespeito à individualidade e à própria liberdade de pensamento. Não pretendo apregoar o desapego a toda tradição, influência social, ritual ou costume. Ocorre que, neste caso específico, na discussão de um tema sobre o qual, de fato, nada se sabe, defendo que nada se afirme. Muito bom eu vou achar que meu filho não mate, não furte nem cobice a mulher do próximo (evita problemas, não é?), mas nada de azeite e sinal da cruz no bebê. Melhor estimulá-lo a pensar e fazer escolhas por si só, quando for capaz para tal. E muito bom eu vou achar que meu filho seja gremista. Ruim é se resolver se agremistar demais e sair brigando com colorado. Extremismo ideológico, que tristeza!

Deixe uma resposta

XHTML: Você pode usar estas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>