Epifabiconia

Os melhores textos da Fabico estão aqui!

Renata Fetzner (classificação)

Publicado por epifabiconia em Abril 25, 2008

 

É SÓ OLHAR PARA VER

 

Já dizia a canção “é só olhar pra ver que eu sou do sul”. O resto do Brasil, por falta de conhecimento ou por preconceito, costuma ter uma idéia estereotipada dos habitantes do Rio Grande do Sul. Chegam a pensar que os aproximados dez milhões e seiscentos mil habitantes do Estado mais ao sul do nosso país andam trajados tipicamente, galopando seus cavalos crioulos pelas ruas da cidade, com a cuia do chimarrão em mãos e almoçando churrasco todos os dias. Nós, gaúchos, os protagonistas dessa história, sabemos que os quatro cantos da nossa terra longínqua e de tantas peculiaridades abriga gaúchos de diversas formas, cores e tamanhos.

O gaúcho Rodrigo Cambará é o gaúcho típico, o estereótipo do Rio Grande. Anda pilchado diariamente, não dispensa comida gaúcha em todas refeições, não desgruda do mate e tem aquele sotaque forte e pomposo que é forçadamente imitado por brasileiros como os do “Casseta e Planeta”. Ele trata os hábitos dos homens modernos como coisas de maricas, tchê! Com esse tipo de gaúcho, tradição é tradição, 365 dias por ano. Ele expõe seu amor pelos pampas em qualquer momento do dia, seja em trovas, versos, canções, vestuário ou culinária.

Outro tipo, igualmente comum, são os gaúchos da ilha. Na maioria das vezes, jovens que, nos finais de semana, feriados e férias, pegam o carro e as pranchas de surf e rumam para o litoral catarinense. São encantados pelas praias da ilha e do restante do Estado de Santa Catarina. Ferrugem, Floripa e Praia do Rosa são como sua segunda casa, onde encontram a beleza e o clima de natureza que dizem não encontrar por aqui.

Na capital do Estado, encontramos o Gaúcho da Bela Vista e do colégio Anchieta. Integrante da tal “Classe A”, assim chamada pelas estatísticas, mora na Bela Vista, Três Figueiras ou Moinhos de Vento. Seu filho estuda no Anchieta ou no Farroupilha. No domingo, jamais freqüenta a Redenção ou o Gasômetro (ambos pontos turísticos e muito freqüentados). Contenta-se com um cubículo de grama, a Praça da Encol, cercado por alguns dos edifícios mais chiques da capital gaúcha. Nas férias, ou torna-se gaúcho da ilha, ou migra para a praia internacional mais próxima: Punta Del Este, onde participa de diversos coquetéis e estampa colunas sociais.

            No verão, o gaúcho “agüento tudo por uma praia” dá o ar de sua graça. É aquele que, quando chegam as festas de final de ano, enche o carro e se muda para a praia. Mas não Santa Catarina, muito menos Punta Del Este. E sim, as praias gaúchas mesmo, geralmente, as do litoral norte. São três meses curtindo as praias cinzentas do litoral gaúcho, contentando-se com as caminhadas pelo centro de Capão da Canoa, atravessando a ponte de Tramandaí-Imbé, telefonando de orelhões em formato de abelhas no Balneário Pinhal, vendo shows na concha acústica de Cidreira. Três meses vestindo chinelo, bermuda, boné de brinde, com marca do óculos escuro e pele vermelha, comprando crepe, indo na sorveteria todo santo dia e tomando chimarrão na beira da praia. O pior: agüenta a péssima infra-estrutura das praias, os altos preços dos produtos, o mar gelado e com cor de chocolate, os argentinos roubando suas mulheres, o famoso vento nordestão na beira da praia, os inundamentos das ruas depois de um dia de chuva, entre tantas outras coisas pelas quais só esse grupo de gaúchos passa. Mas, apesar de todos os percalços do veraneio, continuam amando sua praia, e um ano depois, estarão lá novamente.

            Ao chegar o mês de setembro, mais precisamente a semana do dia 20, quando se comemora a Revolução Farroupilha, centenas de gaúchos Rodrigo Cambará aparecem, de súbito. Podem ser chamados de “gaúchos Maria-vai-com-as-outras”. De uma hora para outra, o Estado inteiro passa a exaltar seu amor pela terra, por suas origens, passa a seguir o tradicionalismo. Vão às lojas e compram vestimentas típicas, passam a ouvir músicas tradicionalistas, levam chimarrão para o trabalho, forçam o sotaque. Tudo vira festa e todos louvam seu pago e sua querência amada.

            Pelo fato de o Brasil ser um país de diversas colonizações, o Rio Grande do Sul possui gaúchos meio cá, meio lá. Os meio lá na Alemanha cultivam os costumes germânicos. Vivem, geralmente, no interior do Estado, e até hoje preservam as tradicionais festas alemães, chamadas de kerbs, regadas a muita comida (cuca, lingüiça, pães com kas-schmier) e as famosas e engraçadinhas bandinhas alemães. Mesclam três sotaques: o gaudério, o interiorano e o alemão (que ainda é muito falado nas casas de origem germânica). O outro gaúcho meio cá, meio lá, vem da Itália. Praticamente igual ao alemão, mudam-se os costumes, as músicas e as comidas, que são substituídas por vinhos, massas, polentas e uvas. Em muitas cidades, nos sentimos na própria Alemanha ou Itália, mas sempre ouvimos ou vemos algo que nos remete ao amor pelo Rio Grande do Sul.

Se você se identificou com mais de um tipo de gaúcho, não estranhe. No fundo, o verdadeiro povo do Rio Grande do Sul é uma soma de alguns desses grupos e de outros tantos. Entre semelhanças e diferenças, somos constantemente notados Brasil afora, afinal “É só olhar pra ver que eu sou do sul”.

 

 

Deixe uma resposta

XHTML: Você pode usar estas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>