Ariel Fagundes (história de um colega)
Publicado por epifabiconia em Abril 25, 2008
VÉSPERA DE FINADOS
É um lugar absolutamente repulsivo. Localizado na avenida Farrapos, o bar do meu pai possui um público fiel formado por rameiras idosas e baratas, travestis musculosos e drogados, bêbados solitários e desdentados. Ah, e um que outro funcionário de bordel que precisa de alguns goles para sorrir ao encarar os olhos dos empresários que traem suas esposas nas curvas das prostitutas de luxo. As paredes do bar são cobertas por um encardido gosmento, resultado de anos de exposição a óleo de fritura, à fumaça de cigarro e ao suor insalubre que exala dos corpos da distinta clientela. Já perdi a conta das horas que a mãe perdeu tentando tirar aquele encardido. Mas, como que por um feitiço maligno, não há nenhum produto que seja capaz de alvejar o gesso daquelas paredes.
Eu nunca vou esquecer, aconteceu numa quinta-feira, dia 1º de novembro, véspera de Finados. Nessa data, minha irmã caçula estava comemorando o seu primeiro aniversário. Levando em consideração que nosso apartamento era pequeno demais para acomodar todos meus tios e primos, o pai decidiu fazer a festa no bar. Sim, em uma das piores partes do centro porto-alegrense, com o sexo ilegal e as drogas permeando o local, e com as fétidas paredes, que deixaram de ser brancas há muito tempo, emoldurando a cena. Porra, é claro que eu fui contra! O primeiro aniversário da minha irmã ia ser comemorado nesse ambiente horrível. Isso não é um bom jeito de se começar a vida!
Como, em vinte e tantos anos de casamento, a mãe nunca questionou uma decisão tomada pelo pai, por mais estúpida que fosse, não ia ser agora que isso ia mudar. Restou a mim, então, reclamar. Tentei explicar de todas as formas que um bar na Farrapos não é lugar adequado para se fazer festa com crianças (como se fosse algo muito difícil de ser entendido), mas não adiantou. O problema é que meu pai é tão teimoso que a minha insistência só contribuiu para que ele se tornasse cada vez mais inflexível. Ele disse que já tinha ligado pra todo mundo e que estava tudo certo, o aniversário ia ser lá e isso não estava mais em discussão. Ponto.
Mas, enfim, tudo foi feito como ele quis e, às oito horas da noite, minha família já estava reunida no bar. Alguns tios que chegaram mais cedo iam acumulando garrafas vazias de cerveja em cima das mesas de plástico. As gargalhadas se tornavam cada vez mais ruidosas e as crianças se divertiam correndo pelo bar. Faltava apenas um tio chegar para que o pai baixasse a cortina de ferro da porta de entrada, e a festa começasse de fato. Nesse momento, surgiu um jovem de pele clara, mal cheiroso e mal vestido. Para nossa surpresa, ele entrou correndo bar adentro e se encolheu atrás do balcão. Estava apavorado. Seu corpo inteiro tremia, e o suor jorrava compulsivamente de sua pele, inundando o piso de madeira. Ao ver aquilo, ninguém – muito menos eu – entendeu nada.
De imediato, meu pai e meus tios se puseram a gritar com o pivete. Primeiro ameaçaram chamar a polícia, depois ameaçaram expulsá-lo na base da porrada mesmo, mas o guri não moveu um centímetro. Parecia não estar escutando uma palavra do que era dito. Essa situação já estava me deixado bem assustada, mas então, antes que qualquer dos meus tios embriagados cumprisse as ameaças, chegaram dois homens armados com revólveres. Eu disse que não era uma boa idéia! Suas peles eram negras como suas armas, e seus olhos, vermelhos e arregalados. Pareciam dobermanns raivosos farejando sua presa.
“Cadê aquele filho da puta?”, um deles gritou. Silêncio mortal no bar. Puts, eu fiquei muda, estática. Nem se quisesse ia conseguir dizer onde o guri estava. Os mesmos irmãos do pai que estavam tão corajosos 30 segundos atrás também não conseguiram emitir o menor som diante daquilo. “Eu não vou perguntar de novo, caralho!” Então minha priminha de dez anos, chorando mais do que eu tinha visto qualquer outra criança fazer, apontou seu pequeno dedo indicador para a direção do balcão. Os homens agarraram o jovem maltrapilho e o atiraram para o centro do bar num só golpe. Porra, eu avisei que não era uma boa idéia! O guri começou a chorar e a soluçar tanto que era impossível entender o que ele dizia, mas, devido à situação, era óbvio que estava implorando por misericórdia. Os dois homens apontaram suas armas para o guri, que a essa altura estava completamente encharcado de suor, lágrimas e urina, e as engatilharam.
Enquanto isso, todos meus tios e primos, meu pai, minha mãe e, claro, eu estávamos em estado de choque. Ninguém dava um pio. Até mesmo as crianças, que não pararam de chorar desde que tudo havia começado, ficaram quietas. Quando todo mundo pensou que ia ver o cérebro do pivete se espalhar pelo bar inteiro, o estouro de um tiro a queima roupa deu lugar a dois baques surdos. O guri havia apenas recebido dois chutes, um na cara e outro na barriga. Talvez “apenas” não seja um termo preciso. Com os chutes, ele perdeu os dentes que ainda tinha e ficou cuspindo muito sangue. Bom, mas pelo menos não morreu, né? Após desferir os golpes, os dois homens guardaram suas armas e foram embora como se aquilo tudo tivesse sido apenas um contratempo que os atrasou em alguns minutos.
A platéia ficou boquiaberta com o espetáculo e sinceramente aliviada. Ninguém imaginou que o pivete ia sair vivo dali. Após o choque, a primeira atitude tomada foi chamar uma ambulância pra levar o guri embora. A segunda foi se dedicar a tecer as mais mirabolantes hipóteses sobre o ocorrido. Acerto de quadrilhas rivais, cobrança de dívidas de crack, etc etc etc… Felizmente, o socorro chegou rápido, e o jovem maltrapilho, desacordado – mas vivo -, sumiu de nossa vista. O tio que meu pai estava esperando acabou nem vindo, e a trágica festa foi encerrada antes mesmo de começar. Bom, nem preciso dizer que todos os aniversários seguintes foram comemorados lá em casa. Todo mundo meio apertado, mas feliz.