Felipe Lopes (história de um colega)
Publicado por epifabiconia em Abril 25, 2008
QUINTA-FEIRA DE CINZAS
Amanhecia com um sol tímido escondido atrás das nuvens. Os paralelepípedos da rua ainda estavam cobertos de confetes e serpentina próximo à entrada do clube Corinthians. Na calçada, pedaços de garrafas quebradas se juntavam a alguns bêbados atirados na sarjeta.
Era quarta-feira de cinzas, mas pra mim o carnaval ainda não havia terminado. Não fui pro Rio, meu bloco não ganhou o desfile, não tive nenhuma paixão carnavalesca, nem ao menos uma boa mentira pra contar. Fora mais um feriado entediante em Santa Cruz do Sul, assim como todos os últimos.
Mas afinal, era carnaval! Disposto a mudar meu destino de folião frustrado, ao meio-dia, retomei os trabalhos. Antes que os efeitos da ressaca de três dias de bebedeira começassem a recair sobre mim, já estava acompanhado de alguns sobreviventes da maratona de festas e de algumas caixas de cerveja, cheias de garrafas geladas que suplicavam por esvaziar-se antes que ficassem quentes. Quando os quadrados do piso da casa vó adquiriram formas arredondas, notei que o álcool começara a surtir efeito e, quase que concomitantemente ao início de minha embriaguez, surge ao portão da velha casa amarela meu primo Guilherme, com um sorriso tão convidativo quanto o verde brilhante da garrafa de Absinto que segurava em suas mãos. Feito o carreto! Não pude esconder que minha felicidade era maior ao admirar a “fada verde”, do que ao contemplar o nariz batatudo de meu primo, que já estava mais do que enjoado de ver.
E assim, sem me dar conta, aquela tarde passou num piscar de olhos, as paredes amarelas já haviam ficado marrom com o anoitecer, e as janelas da casa surpreendentemente multiplicavam-se a cada olhar. Entre risadas, histórias incríveis, alguns copos quebrados e muitas idas ao banheiro, nos lembramos de aquela noite ainda nos reservava a festa final do carnaval. Assim, quando a ultima garrafa de cerveja (agora quente, mas não por isso intragável) chegou ao fim, saímos de casa rumo ao clube.
A grande reta da rua central me parecia cheia de sinuosas curvas, as luzes alaranjadas dos postes atingiam meus olhos com tamanha força que me faziam caminhar de cabeça baixa, olhando para meus próprios pés, que a cada passo tomavam uma nova direção. Senti uma forte sensação de enjôo e, ao dar mais um gole no gargalo da suntuosa garrafa, vomitei no meio da rua litros de “cerveja esverdeada”. Durante o trajeto, notei que meus companheiros boicotavam qualquer tipo de conversa comigo. Eu ria sozinho da fala enrolada dos guris, sem me dar conta de que eles ao menos conseguiam pronunciar alguma palavra.
Chegamos ao clube lá pelas três horas da manhã e, então, recebemos a triste notícia do segurança que cuidava a porta: “ninguém mais entra na casa!”. “Mas como assim ninguém entra?”, pensei. Minha última noite de carnaval era a esperança de salvar mais um feriado perdido, de poder voltar feliz pra casa. Tinha a convicção de que aquela festa me reservaria algo de especial, mas lá, dentro do clube Corinthians, não do lado de fora! E não seria aquele gorila, filho da puta, de dois metros de altura e três de largura que iria botar todos os meus planos por água abaixo! Filho da puta! Era só assim que eu pensava no negão três por quatro. E assim o xinguei quando ele deu o assunto por encerrado: “Tu é um filho da puta mesmo!” e repeti por várias vezes e, em cada uma delas, acrescentava mais uma gama de palavrões.
Triste era pouco, estava arrasado, deprimido, frustrado! Quase que chorando, caminhei à procura do caminho de casa. Mal notei que estava sozinho. Realmente minha companhia, naquele momento, já não era das mais agradáveis. Nos fundos do clube, encontrei, nos degraus do antigo estacionamento, um lugar confortável para descansar e finalmente tomar o derradeiro gole do Absinto maldito!
Uma voz firme e grave me acordou: “Agora a gente vai ver quem é o filho da puta!”. Era o gorila engravatado que estava em minha frente. O troglodita de careca reluzente exibia nas mãos um cacetete preto e, sem hesitar, acertou-me na altura do estômago. Nessa hora, de dor, urrei: “Filho da puta!”. E a cria da santíssima mãe me batia com cada vez mais força, ora nos braços, na cabeça, nas pernas, na barriga, entre as pernas e a barriga, por todo o corpo.
Acordei ainda na escada, completamente dolorido e ainda embriagado. Mas a maior dor foi ver o dia daquela manhã cinzenta de quinta-feira nascendo. Perdi minha quarta-feira de cinzas, e com ela as esperanças de salvar meu carnaval.
Ao chegar em casa, notei que não havia ficado nenhuma marca das agressões do segurança. Foi a gota d’água. Todas minhas tentativas fracassaram. Não fui pro Rio, meu bloco não ganhou o desfile, não tive nenhuma paixão carnavalesca, e a única boa história que tinha pra contar parecia mais uma grande mentira.