Gabriel Schirrmann (história de um colega)
Publicado por epifabiconia em Abril 25, 2008
EDUARDO E MÔNICA
Eu era tão garoto, e ela, tão mulher. Eu, um jovem pré-vestibulando freqüentador de festinhas universitárias, e ela por volta dos 30 anos, empresária. Mundos tão distantes e que nunca teriam a chance de se encontrar, se não fosse pelas duas horas de viagem entre São Paulo a Porto Alegre. Ela, vestida com roupas caras e sérias, estava voltando de uma importante reunião de negócios; e eu, sentado ao seu lado, de bermuda, tênis e camiseta, voltando de uma visita a casa de minha mãe.
Durante a viagem, a distância entre as idades diminuía rapidamente. Ela, ao falar comigo, se sentia tão menina; e eu, com ela, tão homem. Falamos de tudo, Jorge Bem, pôr-do-sol no Guaíba, Rua Augusta, Cidade Baixa. E, quando eu tentara jogar meu papo adolescente que nunca falhava com as meninas do cursinho, o capitão de nosso vôo anunciou a aterrissagem. Fiquei inconformado. Tudo passara tão rápido, tudo tão intenso. Minha companheira de vôo parecia já uma antiga paixão.
Então, já no saguão do aeroporto, era hora de tudo acabar: homem voltar a ser garoto, e menina voltar a ser mulher. Caminhamos juntos até onde os caminhos coincidiam, nos demos três cordiais beijinhos, e cada um seguiu seu rumo. Pensei em tudo que havíamos conversado e me lembrei que, apesar de saber que ela havia viajado mundo tudo, namorado com dançarino de axé e que sua comida predileta era lasagna, não sabia o seu nome. Mas então aconteceu: foram poucos minutos sem ela e eu já não aquentava mais. Virei-me e ainda conseguia vê-la sumindo no meio da multidão. Agarrei forte a mochila e sai correndo atrás dela. Depois de desviar de malas, pessoas, baldes de limpeza, minha mão finalmente conseguiu tocar o seu ombro. Ela se virou assustada, mas no fundo sabia que era eu a lhe chamar a atenção “Um nome, você tem um nome não é?” perguntei, com certo tom de timidez. Ela, sorridente, respondeu – Mônica, Mônica Rosato. E já respondendo, deu as costas e sumiu.
Chegando em casa, mal cumprimentei meu pai e já fui direito para frente do computador. Orkut, procura, “Mônica Rosato”. E, na tela, dividindo espaço com outras seis ou sete mulheres, estava a foto dela, num elegante vestido preto e tão dona de si. Cliquei. Era mesmo ela, não quis deixar recado com medo de parecer juvenilmente afobado. Esperei uma semana e escrevi: “Oi Mônica, lembra de mim? Do vôo de São Paulo. Manda notícias beijo”. E, como mágica, no outro dia em minha página de recados, a resposta: “Então teu nome é Eduardo, claro que lembro, pode deixar, uma hora dessas combinamos algo, beijos”.
Os meses se passaram. Conheci outras garotas e deixei Mônica guardada em algum lugar no tempo, por medo ou por preguiça, não sei. Sem e-mails, telefonemas, recados no orkut, nada, nada dela. Mas o mundo insistia em nós.
Domingo, como de costume vou ao parque com meus amigos: chimarrão, risadas, tudo normal para um fim de tarde na redenção. Fiquei sentado enquanto meus olhos passeavam pelo parque e, de longe, vejo uma linda loira em roupas esportivas que contornam seu corpo desenhado e suado. Sua silhueta me é familiar. Ergo-me, vou atrás, chamo baixinho com medo de errar. “Mônica?”. Ela se vira, me olha nos olhos, surpresa. Trocamos algumas cordialidades, e a deixo ir. Mas dessa vez seria diferente.
Na mesma noite, ligo para ela, conversamos, e ganho minha chance: quinta feira, um chope. Chego de ônibus com o dinheiro contado no bolso, e ela, de carro importado. Bebemos o suficiente para virem as risadas. Assim ficamos por horas, horas demais até,
Quando vamos pagar a conta, percebo que já passara a hora do último ônibus. Aproveito a situação e falo para Mônica: “Não tem mais ônibus. Tem um sofá no teu apartamento?”. Ela me olha assustada e assustado fico eu quando ela responde: “Claro que tem”.
Chego em seu apartamento, ainda sobre o efeito do álcool. Ficamos horas sentados no sofá vendo fotos e contando histórias. Quando começo a trocar a euforia pelo sono, ela nota e diz que vai arrumar minha cama. Suas atitudes fazem com que eu me sinta em uma posição quase de mãe e filho, mas não era isso que queria, a vontade de beijá-la tomara conta do meu íntimo.
Ela me chama de dentro do quarto. Sigo sua voz e acabo dentro de um cômodo muito aconchegante, luz baixa, temperatura agradável e uma linda mulher de camisola mostrando minha cama: uma espaçosa cama de casal onde eu, já decepcionado, tentava me conformar em dormir sozinho. Mas vendo essa cena pensei: “Ela já é uma mulher feita, não me chamaria para um chope nem aceitaria que eu dormisse em sua casa se também não estivesse interessada”. Quando tomo coragem paro de pensar, estufo meu peito e, enquanto ela fala alguma coisa como onde ficava o banheiro e que horas teríamos que acordar, a pego pela cintura e lhe roubo um beijo forte. Me impressiono, pois ela me beija ainda mais forte.
Como se fosse natural, caímos por sobre a cama. Minha cama agora era nossa. Puxo sua camisola e vou descobrindo cada centímetro da sua pele bronzeada e, em seus seios redondos e rígidos, me perco por completo. Estava louco! Queria agarrá-la tão forte a ponto de nos tornarmos um só. Por horas rolamos nus pela cama, e nus também dormimos.
O dia amanheceu e eu ainda tinha Mônica em meus braços. Levantei-me, e dava para sentir no quarto a atmosfera de satisfação. Preparei o café, e ela, vestida com minha camiseta, sentou-se ao meu lado na mesa. Como se tudo fosse muito natural, nos beijamos e nos despedimos.
Fui para a aula, e ela, para o trabalho. Voltamos para nossas vidas tão diferentes uma da outra. Ela viaja muito, eu continuo na universidade e indo à Redenção aos domingos. Às vezes ela me liga de longe. Os meus olhos sempre a procuram pelo parque.