AS AMÉLIAS, AS DE ATENAS, AS MODERNAS…
Muitas conquistas foram atingidas por nós, mulheres: o direito de voto, a inserção no mercado de trabalho, a maior aceitação da nossa sexualidade. Ficou para trás o tempo das “Amélias”, das quais o maior objetivo de vida era casar e ter filhos, que tinham como função as atividades domésticas. Ficou para trás o tempo das “Mulheres de Atenas”, de Chico Buarque, aquelas que “quando fustigadas não choram – se ajoelham, pedem, imploram”. Contudo, junto das conquistas, vieram as inseguranças, a artificialidade e os relacionamentos vazios. Como sempre, é mais fácil para nós julgarmos o estilo de vida e valores da época de nossos avós do que refletirmos sobre os nossos, distanciando-nos dos princípios sob os quais fomos educados.
Quantas mulheres modernas se vêem escravas não mais dos casamentos, mas sim da busca incessável por beleza e reconhecimento? Quantas não conseguem se aceitar do jeito que são, gostar de si mesmas, envelhecer com sabedoria e tranqüilidade? Muitas, pateticamente, tentam parecer como se fossem 20, 30 anos mais jovens do que são. Estas, ao se olharem no espelho e repararem a primeira ruga que surge, entram em crise. Para impedir que as marcas do tempo apareçam, se submetem a processos cirúrgicos, ginástica, drenagem linfática, cremes milagrosos, pílulas de colágeno. Já as “Amélias”, envelheciam naturalmente, viravam aquelas avós queridas de cabelos brancos – algumas pintavam, não para esconder os anos, mas sim para se sentirem bonitas. Hoje vemos avós sem rugas, que não admitem suas idades e que não têm o orgulho de dizer “sou avó”.
Antigamente, as mulheres casavam cedo e dedicavam-se completamente aos seus maridos e filhos, consolidavam uma família. Não estudavam ou trabalhavam, a dedicação era total às atividades domésticas. As mulheres modernas têm dois empregos, se divorciam, muitas nem chegam a casar. Contudo, grande parte – tanto das separadas quanto das solteiras convictas – desconhecem um relacionamento de verdade. Talvez esteja fora de moda, talvez estejamos vivendo a era da “vergonha do amor”, na qual demonstrar apego é coisa de gente fraca. Inventaram a expressão “a fila anda” – e parece que junto dela andam a cumplicidade, o respeito, a profundidade. Conquistamos o divórcio, mas perdemos o sentido real de união. Temos casas bonitas e lares despedaçados, bons empregos e relações vazias. Compramos mais e sentimos menos, cuidamos do nosso físico e esquecemos do psicológico. Gastamos em objetos supérfluos, consumimos antidepressivos, vamos ao psicanalista. Temos o direito de buscar a felicidade como e com quem bem entendermos, mas estamos felizes? Nosso estilo de vida competitivo e nossa tentativa de provar que somos autosuficientes estão fazendo com que fiquemos mais frustradas e não saibamos mais reconhecer nos outros a capacidade de crescimento, de aprendizado.
Em suma, o estilo de vida das “Amélias” e das “Mulheres de Atenas” não cabem nos moldes da nossa sociedade atual, mas retomar alguns valores básicos aliando às conquistas da modernidade talvez seja crucial para que resgatemos o amor próprio, a aceitação e a felicidade