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Posts de Abril, 2008

Juliana Oliveira (comparação)

Publicado por epifabiconia em Abril 7, 2008

AS AMÉLIAS, AS DE ATENAS, AS MODERNAS

 Muitas conquistas foram atingidas por nós, mulheres: o direito de voto, a inserção no mercado de trabalho, a maior aceitação da nossa sexualidade. Ficou para trás o tempo das “Amélias”, das quais o maior objetivo de vida era casar e ter filhos, que tinham como função as atividades domésticas. Ficou para trás o tempo das “Mulheres de Atenas”, de Chico Buarque, aquelas que “quando fustigadas não choram – se ajoelham, pedem, imploram”. Contudo, junto das conquistas, vieram as inseguranças, a artificialidade e os relacionamentos vazios. Como sempre, é mais fácil para nós julgarmos o estilo de vida e valores da época de nossos avós do que refletirmos sobre os nossos, distanciando-nos dos princípios sob os quais fomos educados.

 Quantas mulheres modernas se vêem escravas não mais dos casamentos, mas sim da busca incessável por beleza e reconhecimento? Quantas não conseguem se aceitar do jeito que são, gostar de si mesmas, envelhecer com sabedoria e tranqüilidade? Muitas, pateticamente, tentam parecer como se fossem 20, 30 anos mais jovens do que são. Estas, ao se olharem no espelho e repararem a primeira ruga que surge, entram em crise. Para impedir que as marcas do tempo apareçam, se submetem a processos cirúrgicos, ginástica, drenagem linfática, cremes milagrosos, pílulas de colágeno. Já as “Amélias”, envelheciam naturalmente, viravam aquelas avós queridas de cabelos brancos – algumas pintavam, não para esconder os anos, mas sim para se sentirem bonitas. Hoje vemos avós sem rugas, que não admitem suas idades e que não têm o orgulho de dizer “sou avó”.

 Antigamente, as mulheres casavam cedo e dedicavam-se completamente aos seus maridos e filhos, consolidavam uma família. Não estudavam ou trabalhavam, a dedicação era total às atividades domésticas. As mulheres modernas têm dois empregos, se divorciam, muitas nem chegam a casar. Contudo, grande parte – tanto das separadas quanto das solteiras convictas – desconhecem um relacionamento de verdade. Talvez esteja fora de moda, talvez estejamos vivendo a era da “vergonha do amor”, na qual demonstrar apego é coisa de gente fraca. Inventaram a expressão “a fila anda” – e parece que junto dela andam a cumplicidade, o respeito, a profundidade. Conquistamos o divórcio, mas perdemos o sentido real de união. Temos casas bonitas e lares despedaçados, bons empregos e relações vazias. Compramos mais e sentimos menos, cuidamos do nosso físico e esquecemos do psicológico. Gastamos em objetos supérfluos, consumimos antidepressivos, vamos ao psicanalista. Temos o direito de buscar a felicidade como e com quem bem entendermos, mas estamos felizes? Nosso estilo de vida competitivo e nossa tentativa de provar que somos autosuficientes estão fazendo com que fiquemos mais frustradas e não saibamos mais reconhecer nos outros a capacidade de crescimento, de aprendizado.

 Em suma, o estilo de vida das “Amélias” e das “Mulheres de Atenas” não cabem nos moldes da nossa sociedade atual, mas retomar alguns valores básicos aliando às conquistas da modernidade talvez seja crucial para que resgatemos o amor próprio, a aceitação e a felicidade

 

 

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Gerda Arns (crônica)

Publicado por epifabiconia em Abril 7, 2008

APESAR DE TERMOS FEITO TUDO, TUDO…

 

“Não quero lhe falar, meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos; quero contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo”:

Cá estou eu, menina tentando insistentemente crescer, amadurecer, ter um currículo invejável. Tanto esforço para provar pra dona Elis Regina que ela se engana quando diz que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Eu, assim como minhas colegas e amigas, estou trabalhando para que o mundo pare de nos enxergar como fábricas de bebês e donas-de-casa. Não acho que o sinal esteja fechado para nós, que eles tenham vencido. Que há perigo em cada esquina é verdade: desrespeito e violência em tentativas frustradas para com garotas que buscam conquistar o mercado de trabalho.

            Mas eis que, em um belo dia, ligo a TV e me deparo com a seguinte cena: o casal jovem chega à sua nova casa com um bebê recém-nascido no colo. O rapaz mostra a casa para amada que estava no hospital até então, ambos emocionados por começarem uma vida nova. Uma gracinha. Aí, veio a pérola:

            “E aqui, amorzinho, está o seu novo fogão, para você cozinhar as papinhas do nosso neném.”

            “Ah, aqui eu coloquei uma máquina de lavar roupa pra você não ter muito trabalho na hora de lavar roupa.”

            Não sei o que me chocou mais: o ator Lázaro Ramos comentando aquelas barbáries ou a atriz Débora Falabela tendo de interpretar uma emoção sonsa, como se tivesse dado a luz aos eletrodomésticos também..

            Como se não bastasse, o macho sai de casa, vai entupir seus amigos com charutos, enquanto a fêmea fica, tentando descobrir como trocar fraldas. Sozinha.

            Não. Sozinha não. A mãe dela chega e a ajuda. “Minha filha, lá onde eu estudei a gente não tinha só aulas de francês e etiqueta: aprendíamos também como ser esposas de homens grandiosos”, dizia ela, com uma voz mansa e meiga, enquanto varria a casa.

            Pausa. Náusea. Quer dizer então que todo o meu esforço para me tornar futuramente mais do que a “esposa de Fulano” estava indo por água abaixo? Não é isso que a sociedade espera de nós, afinal! O fogo dos sutiãs queimados foi mais um fogão gigante em que se fez um grande prato de risoto para os maridos, e não um sinal de protesto?! O anticoncepcional não foi um símbolo de que as mulheres poderiam controlar a gravidez, mas de que os maridos não iam ter de se incomodar com mais crianças correndo pela casa, com mais um gasto?!

            Fiquei horrorizada! No final das contas, quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude está em casa, guardado por Deus assistindo à telenovela. Descobrindo que tudo aquilo que me ensinou é errado, que deveria ser o contrário. O Brasil inteiro assistiu àquele diálogo – que não foi barrado, contestado, mas confirmado por 15 longos minutos, talvez mais.

            Eu tive vontade de ir até lá e esbofetear a todos que participaram daquela bestialidade. Eles podem até dizer que eu estou por fora, ou então que estou inventando. Mas seja lá quem tenha escrito aquilo, dá pra dizer com segurança que essa pessoa ama o passado e não vê que o novo sempre vem.

Ele custa, mas vem.

 

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Paulo Finatto (crônica)

Publicado por epifabiconia em Abril 4, 2008

            Quem acessa as notícias do portal Terra deve ter reparado na manchete que trazia uma foto de membros do Greenpeace em frente a uma geleira, no sul da Argentina. A fotografia mostrava a dimensão do descongelamento em comparação com uma fotografia do mesmo bloco de gelo, em 1930. A geleira pode desaparecer nas próximas décadas se a temperatura terrestre não parar de aumentar.

                                                                     *

      Porém, é da Amazônia que vem a pior notícia. Duvido que alguém tenha prestado atenção, seja quando apareceu no Jornal Nacional, na Folha de São Paulo ou até mesmo na Zero Hora. O desmatamento cresceu além das previsões. As estatísticas estão aí, acessíveis para qualquer um, na Internet. O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Especiais) informou que em 2007 foram desmatados mais de três mil km2 somente nos dois últimos meses do ano. Estima-se que, para esse início de 2008, um número próximo a sete mil km2 de área verde tenha sido desmatado. Não podemos mais nos conformar com o que chamávamos de uma boa notícia em anos anteriores. O ritmo da devastação, que estava caindo, agora cresce assustadoramente.         

Sempre que alguém fala em “internacionalizar a Amazônia”, surge um para gritar “a Amazônia é nossa!”. Como assim, “é nossa”? Hoje a Amazônia é dos que invadem e devastam. Madeireiros, plantadores de soja, pecuaristas, mineradores; pequenos ou grandes empresários. A Amazônia seria “nossa” se o Governo tivesse condições de impor a lei, se conseguisse fiscalizar e punir quem promove o desmatamento clandestino.

                                                                              *           

 Quando ocorre algum genocídio em qualquer lugar do mundo, o que pedimos é uma intervenção da ONU para evitar uma matança em proporções ainda maiores. O que acontece na Amazônia tem tudo para ser tão preocupante quanto um genocídio. A humanidade inteira é vitimada, enquanto nós, brasileiros, agimos como aqueles manifestantes estúpidos que orgulhosamente desafiam as tropas da ONU. Queremos que a Amazônia continue sendo “nossa”, desprezando os dizimados desse genocídio.           

Se governos estrangeiros e entidades internacionais, juntamente com governo do Brasil, pudessem intervir no sentido de fazer da floresta uma região de preservação ecológica mundial, a floresta seria mais “nossa” do que é atualmente. Outras soluções, sinceramente, não parecem ser soluções. Quem acha que o Ibama, o Exército e a Polícia Federal possuem condições reais para tomar conta de tudo aquilo? Por que mascarar o nosso fraco poder público com um nacionalismo que não engana ninguém?*           

A Amazônia não é uma prioridade para os brasileiros. Nós temos problemas terríveis a resolver antes – dentro de cada favela e debaixo de cada viaduto. Só que, como podemos constatar, a Amazônia é uma prioridade mundial.           

Não vamos acreditar naquela historinha infantil de que os americanos vão chegar um dia para roubar as “nossas” riquezas. Quem está acabando com elas e enriquecendo à custa de todo o planeta são os madeireiros, os pecuaristas e os plantadores de soja.            

A soberania que tantos defendem, simplesmente, não existe. Existiria se, um dia, pudéssemos impor a nossa vontade. O Governo, que bem gostaria de limitar o desmatamento, não é capaz disso. O que estamos esperando para trocar o nosso orgulho pelo bem do planeta?

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Amanda Teixeira (crônica)

Publicado por epifabiconia em Abril 4, 2008

PECADORA

Queridos amigos e irmãos, devo me confessar. Assim que soube dos novos pecados, me senti na obrigação de livrar um pouco a minha alma de tantos erros que já havia cometido. Os antigos pecados já bastavam para encher minha lista de punições e tirar meu lugarzinho no céu, mas agora estou realmente perdida. Além de gulosa, preguiçosa, vaidosa, e das vezes em que é impossível evitar a ira, a soberba, a avareza e a luxúria, ainda tenho que prestar atenção aos novos pecados (na sua nova versão) sociais. 

 

Pertinentes eles são por um lado. Causar injustiças sociais e poluir o meio ambiente deveriam fazer parte da consciência de todos, aliás, nem deveriam ser cogitados como pecados, pois são um requisito básico para a vida em sociedade. Devo agora me confessar não só por meus sete pecados anteriores, mas por todos os pecados do mundo: desculpem-me por causar injustiças sociais, desculpem-me por poluir o meio ambiente e, é claro, desculpem-me por não ter muitas escolhas quanto a isso.

Mas vem aí o mais supérfluo, corriqueiro e ambíguo pecado social: não ficar muito tempo na internet e ou assistindo televisão. Agora usufruir de tecnologias é pecado. Sim, a Igreja Católica quer que deixemos de usar a internet ou de nos entreter com a programação televisiva para sairmos à noite. Pelo menos em meu caso funcionaria assim. Deixaria de me contaminar com os pecados tecnológicos e me contagiaria com drogas lícitas (uso de drogas também é um novo pecado), além de cometer mais uma vez os pecados capitais: vaidade, luxúria e toda a lista dos sete clássicos.

Confesso então: sou uma pecadora, e das grandes! Cometo todos os pecados tradicionais e os novos pecados da globalização. É minha culpa a diferença social cada vez maior, é minha culpa a poluição causada pela queima de petróleo, é minha culpa a fome que assola a África, é minha culpa o narcotráfico, é minha culpa o efeito estufa, é minha culpa a alienação que a TV causa, é minha culpa a descartabilidade dos valores humanos, é minha culpa, é minha culpa.

Agora, talvez já aliviada de alguns dos pecados cometidos, devo pagar a minha penitência. Rezarei por todos nós e evitarei cometer os mesmos pecados. Finalizo por aqui, para não ter que me desculpar por usar das tecnologias por muito tempo; logo estaria novamente a pecar.

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