Epifabiconia

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Amanda Teixeira (conto com base em notícia)

Publicado por epifabiconia em Maio 9, 2008

DURMA

 

            Sentou-se na minha frente e pôs-se a ler uma revista à luz do abajur. Já estava preparada para dormir: a camisola de cetim vermelha, a pantufa cobrindo os tornozelos, um leve casaquinho sobre os ombros, os cabelos negros tapavam uma parte do rosto. Só eu tinha o direito de tocá-la. Ela não era tão jovem como aparentava. Mas era linda. 

Abro a janela e sinto o ar gelado da noite. A casa estava escura, apenas uma luz no corredor iluminava os poucos objetos. Andei até a cozinha, precisava tomar qualquer tipo de líquido. A leiteira prateada repousava sobre o fogão, no fundo restava um pouco de café. Engoli aquilo, estava amargo e frio, parecia uma água suja. Queria aliviar a sensação ruim que se instalara na garganta, uma sensação de desconforto, um nó apertado.

No quarto, a cama de madeira com os lençóis desdobrados encontrava-se fria. Não representava mais um ninho de amor, pelo menos, desde aquela manhã. As roupas de cama estavam brancas e cheirosas. Ela as lavara, talvez para não ter que sentir o meu cheiro. Deveria querer uma noite sossegada para em seus sonhos encontrar outro homem.

Sentado agora, no lugar em que antes ela lia, relembrava a vida. Fomos felizes. Casamos quando tínhamos 20 anos. Não tivemos filhos. Ela não conseguia levar adiante a gravidez. Nos fins de semana, costumávamos passear pela cidade. Sempre em um lugar diferente. Mas os anos se passaram, e os lugares se tornaram nossos conhecidos. Os passeios ficaram escassos até que acabaram. A vida ficou monótona para nós. Priorizei o trabalho, talvez tenha me descuidado dela. Ela tão bonita. Fazia tempo que não vinha mais deitar a cabeça em meu colo para receber um carinho. Tornamos-nos distantes sem que percebesse. Hoje percebi. Descobri de forma cruel. Peguei o telefone, iria fazer uma ligação. Mas escutei sua voz suave, conversando com um homem que a cobria de elogios. Dei um passo para trás, minhas pálpebras arregalaram. Tinha chegado da rua há pouco, ela não tinha notado minha presença. À tarde me deu uma desculpa qualquer e saiu. O tempo de sua demora me atormentava. Senti nojo, controlei-me, não podia fazer escândalo. Não era coisa de homem.

Escutei o barulho da água escorrendo pelo cano da pia no banheiro. Ela escovava os dentes. Veio para a cama. Pegou uma manta macia e esticou por cima dos lençóis. O vento batia na janela. Encostando sua cabeça sobre o travesseiro e esticando suas pernas pelo colchão, perguntou se eu não iria deitar. Era tarde, quase meia noite. Durma, vou ver um pouco de televisão na sala, respondi. Seu corpo se remexeu de um lado para o outro. Ela demorava para pegar no sono, mas quando dormia nada a acordava, a não ser os primeiros raios de sol.

Um silêncio se estabeleceu no ambiente. Até o vento se aquietara. Na estante da sala, olhava as relíquias deixadas pelo meu avô. Tinha guardado a sua arma antiga, o seu machado, e o seu chapéu. Ele era um homem do campo, lamentava-se por ter tido que buscar emprego na cidade. Minhas mãos cansadas e com calos sentiram o metal gelado do machado entre os dedos.

A partir daquela manhã alimentava em meu coração o rancor. Sempre tinha sido um homem fiel. A cada passo que eu dava, as tábuas do chão rangiam. O escuro não permitiu que meus olhos vissem com nitidez. Levantei o braço direito sobre o ombro, a ponta do metal frio atingiu meu rosto. Segurei firme no cabo, com os músculos contraídos e com os dedos entrelaçados no objeto golpeei velozmente seu crânio duro. Com outro golpe, acertei sua nuca. O cheiro do sangue percorreu minhas narinas. O lençol branco tingia-se de vermelho. Estava feito. Durma em paz. Minha mente lamentou o fardo a carregar. Assim que cheguei à porta da sala, senti um frio percorrendo meu corpo. Andei pelas ruas escuras e silenciosas, todos dormiam. Olhei para trás e não mais consegui ver minha casa que eu agora abandonava. Nunca mais voltaria.

 

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