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Évelin Argenta (classificação)

Publicado por epifabiconia em Maio 9, 2008

ENGOLIDO PELO SISTEMA

Classificações. Eu não sei por que as pessoas têm essa necessidade de separar tudo o que vêem. Parece que se não classificadas e organizadas por número e grau as coisas simplesmente não pertencem ao mundo real. Sim, existe uma divisão entre mundo real, imaginário e o mundo das classificações. Ah, o frio mundo das classificações. Ele segrega, agrupa, reforma e deforma os conceitos, sem mesmo pedir permissão. Quem disse ao senhor “classificador” que a água pertence ao mesmo grupo dos sucos só porque é líquida? E quem classificou as coisas em líquidas e não-líquidas? Mas não pense que as classificações sairiam impunes do seu próprio mundo. Nem mesmo elas podem escapar ilesas da rotulação compulsiva dos classificadores, que teimam em classificá-las em duas categorias: as classificações irrelevantes e as preconceituosas.    

As classificações preconceituosas são todas aquelas que separam as entidades por gênero, raça, cor e credo. Elas simplesmente segregam as gerações de maneira simplista e inexata, atribuindo juízos de valor completamente dispensáveis. Para os classificadores, por exemplo, existem três raças: a negra, a branca e a indígena. Para um olhar mais atento, porém, existe apenas uma: a raça humana. Os classificadores preconceituosos adoram fazer pesquisas separando o mundo em católicos e muçulmanos, quando na verdade todos seguem a mesma doutrina: a fé. E quando resolvem separar drogas lícitas de ilícitas, então? Aí sim a bagunça é generalizada. Drogas, permitidas ou não, causadoras de dependência ou não, são substâncias que podem prejudicar um organismo saudável. Qual é a diferença entre a cerveja e maconha? A disponibilidade no bar da esquina? Se essa for a regra devo afirmar, com convicção, que pão de centeio é entorpecente pesado porque nunca o encontro no mercadinho da esquina.

Mas, a vida não se resume ao pão de centeio (uma dentre tantas classes de pães). Ao caminharmos por entre as prateleiras lotadas de um supermercado, por exemplo, nos deparamos com mais uma classificação: a classificação irrelevante. Essa, diferentemente da primeira, não tem nenhum apelo sociológico mais forte. Tem apenas o apelo mercadológico. A classificação irrelevante tem por objetivo dar destaque a aspectos que não tem a menor importância. Ela se aproveita da vulnerabilidade dos consumidores (sejam eles de produtos ou serviços) para enaltecerem características das suas mercadorias que, na verdade, passariam despercebidas por qualquer um. Que diferença faz se as laranjas de suco vêm do Paraná ou do Panamá? Laranja é laranja em todo o lugar do mundo! A única diferença é que as laranjas daqui talvez tenham uma noção mais justa da classificação monetária atual. O que mudaria em minha vida se eu descobrisse que faço parte do grupo de pessoas que calçam primeiro a meia direita e depois a esquerda? Mas o pior seria classificar um sujeito em direitista ou esquerdista em um país onde essas posições não existem ou, pelo menos, ficam bem camufladas na ambidestria.

     Sejam elas irrelevantes ou preconceituosas, as classificações, apesar de cruéis, podem ser bem divertidas. Graças a elas descobri mais uma classificação para as classificações: a classificação inútil. Sim, existe a chamada classificação inútil. E é justamente nessa que esse texto se encaixa. Afinal, para que serve um texto que classifica as classificações e acaba sendo classificado por elas? Por mim, nem chegaria às finais. Seria desclassificado. Mas com classe.

 

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