Henrique Casagranda (conto com base em notícia)
Publicado por epifabiconia em Maio 9, 2008
MATA-ME VÍCIO
Faz mais de uma semana que a garota não sai de sua cela para tomar sol nas horas livres do presídio feminino. Ela prefere permanecer calada a maior parte do tempo, mantendo a mente ocupada em bolar um plano para ter de volta o prazer proporcionado pelos químicos que antes consumia. A abstinência da droga inalável provoca um misto de ansiedade e raiva. De forma agressiva, a personagem escrota em que a garota se transformou lembra com frieza os detalhes do motivo pelo qual permanece presa desde o último final de semana das férias.
Antes de ir lavar a louça, trancada no banheiro fingia que tomava banho enquanto sugava três carreiras do pó branco. Seria o suficiente para enfrentar a mãe, que sempre implicava quando ela saía de casa para curtir as alucinações da madrugada com os amigos. Esperava ansiosamente pela melhor oportunidade da balada: encontrar um cara atraente, capaz de seduzir a menina mulher cheia de curvas e vazia de temor.
A sua parte ela já tinha feito. Combinou com os amigos de se encontrarem na festa mais agitada do subúrbio. Maquiou-se, vestiu a blusa mais decotada, fazendo par com o jeans mais justo e calçou os pés em saltos altos. Pronto, agora não era mais Laurinha, a filha mais velha de Clarisse. Era Laura, uma mulher inconseqüente em busca de diversão.
Mais tarde lavou a louça do jantar, fazendo não mais do que a sua obrigação. Ao enxugar a última faca, percebeu que havia esquecido de informar a mãe sobre sua saída. Ainda com o objeto cortante na mão, dirigiu-se à sala de estar, onde Clarisse, sentada no sofá, virava as páginas de uma revista feminina. Sentiu que a droga começava a fazer efeito. Foi quando disse que sairia de casa e não chegaria a tempo para o almoço. A mãe protestou de forma austera, proibindo-a de sair. Inúmeras desavenças anteriores levaram a mãe a tomar tal atitude. Laura não admitia que pudesse ser controlada. Sabia que a mãe estava lhe punindo pelas diversas noites em que passara fora de casa. Insultou-a, dizendo para que cuidasse da própria vida. Permaneceu firme na sua decisão de sair e disse que ninguém a impediria. Clarisse retirou as chaves da fechadura e desafiou a filha a provar o contrário: “Isso é o que vamos ver”.
Aquelas palavras entraram pelos ouvidos de Laura ecoando como se tivessem sido proferidas por Lúcifer. Seu sangue esquentou e fez com que todas as lembranças felizes de sua vida derretessem, dando lugar ao ódio, um líquido fresco que agora corria por suas veias. Entorpecida, correu até alcançar o pescoço de sua mãe, onde penetrou a faca sem piedade. Aquela facada era um alívio para toda a raiva contida nas brigas anteriores. Desde a separação de seus pais, até a última crise de ciúme que sofrera com seu ex-namorado. Não satisfeita, proferiu mais alguns golpes nas costas daquela considerada agora sua maior inimiga. Cada grito doloroso de Clarisse era um grito de liberdade de Laura, e cada suspiro que a vítima soltava era um peso a menos que a homicida sentia.
Ainda ofegante, a garota tratou de limpar o sangue que escorria pelo tapete. Ficou revoltada por ter que lavar novamente a faca e trocar de blusa. Mas o esforço compensava. Agora não haveria impedimento algum em seu caminho. Sentiu-se aliviada. A excitação que subia pelo seu corpo lhe provocava arrepios. Certamente aquela noite lhe reservava uma incrível viagem. Arrancou as chaves da mão do corpo caído no chão e correu porta afora, saindo da casa onde nunca mais entrou.