Leila Corrêa (conto com base em notícia)
Publicado por epifabiconia em Maio 9, 2008
UM MUNDO MELHOR
No meio da selva colombiana, eu tentava me acalmar. Dizia para mim mesmo que aquele era um ato de protesto, de luta. Não pensava no seqüestro daquela mulher como um ato de maldade. Eu nem ao menos a conhecia. Sabia apenas que era uma importante figura política. Tudo o que eu precisava fazer era parar o carro em que ela e outra companheira estavam e fazê-las virem conosco.
O carro preto se aproximava, imponente, com as bandeirinhas típicas no capô. Minhas mãos tremiam enquanto eu segurava o rifle. Acendi um cigarro, tentando controlar meus impulsos. Eu não tinha muita escolaridade, mas minha paixão pelos livros revolucionários me deu uma cultura acima do esperado para aquela situação. No meio dos combatentes das FARC, eu era conhecido como “Mestre”.
Meu envolvimento com a milícia se deu por causa do desejo de mudar o mundo. Acreditava que poderia instalar um regime mais justo no meu país. Não concordava muito com os métodos, mas não via outra saída. Aquela foi a única forma que encontrei de fazer alguma coisa pelo futuro da minha gente.
Deixei o cigarro cair, enquanto lembrava das pessoas que já eliminei. Ao olhar para meus companheiros, vi o mesmo nervosismo e a mesma tensão em suas retinas. Misturado ao medo, havia o desejo de terminar logo com aquilo. Todos queríamos voltar ao acampamento com a missão cumprida.
Era fevereiro de 2002, e nós suávamos feito porcos. Sentia as gotas escorrerem pelo meu rosto, ensoparem minha camiseta. A selva estava abafada, o sol piorava ainda mais o calor. Nossas roupas estavam sujas, molhadas e rasgadas, devido aos longos anos de militância.
Quando o carro se aproximou o suficiente, saímos de trás das árvores, onde estávamos escondidos, e formamos uma barreira. Ameaçando dar ré, o motorista viu que havia mais homens atrás do veículo. As mulheres no interior do automóvel empalideceram e esboçaram um choro desesperado. Começaram a gritar quando nós quebramos os vidros e os forçamos a descerem do carro. Anunciamos que, se ninguém tentasse fugir, nada de mal aconteceria. Tentamos ser o mais profissional possível, mas não éramos profissionais. Éramos homens lutando por mundo melhor, mesmo que os nossos métodos não fossem os mais ortodoxos. Só queríamos terminar com aquilo tudo. Amarramos os reféns que não tentaram reagir e os levamos embora.