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Fabrício Basso (história do colega)

Publicado por epifabiconia em Maio 12, 2008

CHÁ SABOR… COCÔ

 

            Quando eu era bem pequeninha – ainda menor do que hoje – adorava observar o movimento dos adultos na cozinha. A pia, com o seu armário cheio de panelas e outros guardados, era um lugar interessantíssimo para uma criança de três anos. Não era só curiosidade: era a vontade de fazer o que os adultos faziam, imitar a mamãe, ela que sabia o lugar de todas aquelas coisas e vivia tirando panelas, bules e fôrmas de bolo lá de dentro, e depois sabia guardar tudo de novo, direitinho.

            Naquela época eu nem sabia andar direito, mas tinha muita vontade de aprender as coisas. Eu já tinha aprendido a usar o peniquinho – fora uma vitória e tanto! – e agora estava na hora de aprender a imitar a mamãe. A cozinha era um território exclusivo dela – ao menos, nunca vi meu pai mexer em panela alguma. Portanto, foi por lá que eu resolvi começar a minha nova fase de aprendizado.

            Um dia, a mamãe foi fazer um chá, e eu fiquei olhando da minha cadeirinha. Ela tirou o bule do armário, fez o chá, serviu, lavou tudo e depois guardou de novo no armário. Aí, eu tive o estalo: é no armário onde se guardam as coisas depois de usadas! Fiquei muito orgulhosa de mim mesma, por ter aprendido só observando, sem que ninguém tivesse me dito nada. E esperei o momento de mostrar à mamãe que eu também sabia guardar as coisas no armário, como ela. Depois, ela diria: “filhinha linda da mamãe! Tão pequena e tão inteligente!” Eu já estava até vendo o orgulho no rosto dela, contando para as vizinhas que a sua filhinha já sabia guardar coisas no armário. Que inteligeeente, diriam elas, com ciúmes.

            Alguns dias depois, uma amiga de mamãe veio visitá-la. Conversa vai, conversa vem, as duas vão para a cozinha, e mamãe lembra de pegar o bule para fazer um chá. Sem interromper a conversa, abre o armário e quase tem um ataque do coração. Fecha-o depressa, tentando disfarçar a vergonha. Eu tinha guardado o meu peniquinho ali dentro, um pouco antes da chegada da visita. Claro que eu tinha usado o peniquinho antes de guardar – afinal, eu lembrava bem, “primeiro usa, depois guarda” – e o cocô ainda estava lá dentro, fresquinho, para pavor de minha pobre mãe. Resultado: mamãe, morta de vergonha, teve que enrolar a pobre visita sedenta até a despedida. Sem chá.

            Dali a alguns dias, mamãe contou tudo para vovó, e as duas caíram na gargalhada. Ela me pegou no colo e, ainda rindo, me beijou e disse: “essa minha filha…”

            Não era bem o reconhecimento que eu esperava, mas pelo menos eu já mostrava talento para fazer os outros rirem. Tão novinha e tão talentosa!

 

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