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Guilherme Sommermeyer (história do colega)

Publicado por epifabiconia em Maio 12, 2008

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Demorei-me lendo a carta que havia recebido e mais ainda tentando compreender o que ela dizia. Saí de casa atrasado e tive de apertar o passo. Era uma típica madrugada de inverno e, como de costume, não cruzei com viva alma pelo caminho até o porto. Fiz o trajeto observando a densa neblina que pairava sobre a cidade e a forma como ela escondia o topo de algumas construções. Ao longo do cais, notei que ela escondia também a extensão do rio que, por sua vez, escondia o meu destino. Por sorte não me atrasara a ponto de perder a primeira viagem, não podia me dar o luxo de chegar novamente atrasado ao trabalho.

Cumprimentei o barqueiro e subi a bordo. Uma vez instalado no deque vazio, aproveitei para reler a carta. Ainda sentia a febril sonolência, e aquela mensagem continuava a se mostrar incompreensível para mim. Estávamos navegando há aproximadamente quinze minutos. O vento rasante parecia carregar parte de mim toda vez que batia contra a embarcação. Tentei ocupar a mente com os problemas do trabalho, com a promessa de mais um dia difícil, com a esperança de um desenrolar positivo dos fatos, mas, enfim, retornei ao conteúdo da carta. Mergulhado em profundas divagações, não notei o passar do tempo.

Estava absorto em pensamentos quando o barqueiro me chamou. Ele se mostrou muito constrangido ao longo da conversa, “Dezoito anos nessa vida e isso nunca havia me acontecido”, se desculpou repetidas vezes enquanto desligava o motor. Apontando para o rádio, afirmou que em torno de meia hora seríamos encontrados e escoltados de volta. Tendo me dito isso, ele se mostrou irredutível a respeito da devolução do pagamento.

Nunca havia me perdido.

Voltei ao deque e observei a densa neblina a minha volta. Demorei para perceber a tranqüilidade de toda aquela cena e, principalmente, o alívio que sentia naquela hora. Inconscientemente começava a torcer para que nunca nos encontrassem. Ali onde estava nenhum problema me alcançaria, nem mesmo o argumento da carta. Escorado no parapeito do barco, observei meu reflexo na água. Cores e sombras pintavam um retrato de outro mundo, cheguei a me perguntar se o rio não poderia estar repleto de fantasmas, que também o escolheram para se esconderem do mundo.

Talvez o mundo estivesse mais distante de mim do que imaginava.  Era possível que, em uma manobra equivocada, tivéssemos passado a um rio mais profundo. Senti um calafrio quando olhei a volta e só vi o cinza. A quem eu enganava? O sorriso desaparecera, as pernas hesitaram. Com as mãos nos bolsos, encontrei duas moedas frias. Era melhor pagar o barqueiro. 

 

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