Epifabiconia

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Marlova Mello (conto baseado em notícia)

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

                                                             SUICÍDIO

 

      Eram 19 horas, eu estava sentado em um bar na Andradas. Ouvi os seus passos e senti meu corpo todo arrepiar. Sentou-se ao meu lado e ficou me olhando com seus olhos mórbidos. Aterrorizado, levantei e sai, caminhei pela Andradas em busca de outro lugar para continuar bebendo. Escurecia cedo em Porto Alegre no inverno, e a avenida começava a ficar vazia, mas eu continuava em busca de um copo de vinho barato. Sentei com o copo na minha frente, ao meu lado um bêbado qualquer. Senti um alívio. De madrugada, a volta solitária para casa. Morava bem perto, mas a bebida, minha mais fiel companheira, tornava a caminhada de mais longa. Escutei um barulho, tive certeza de que o desgraçado me seguia. Percebi claramente seu sorriso cínico bem atrás de mim. Segurei a garrafa bem forte e me virei meio cambaleante; eu o vi ali parado, debochando de mim. Tentei atirá-la bem na cabeça dele, mas o infeliz era rápido, e tudo que consegui foi ver o último gole ser desperdiçado no chão. Gritei desesperado e só depois percebi que meu pé sangrava. Arrastei-me até minha casa. Podia pedir ajuda a minha mãe, mas desisti. Ela certamente viria com aquela conversa de que estou bebendo demais, de que não existe ninguém me perseguindo, que era tudo imaginação. Peguei na estante uma garrafa de uísque e me sentei no sofá. Esperava pelo fim daquela madrugada; aquele covarde não aparecia durante o dia. Adormeci por alguns minutos. Um ruído na cozinha me acordou; uma panela estava começando a pegar fogo. Joguei-a na pia, quando escutei sua risada sarcástica; ele estava ali se divertindo com a situação. O tormento teria fim! Decidido, peguei uma das facas que usava para cortar carne. Iria expulsá-lo definitivamente da minha vida. Ele estava na sala de pé com seu ar arrogante, me desafiando. Eu o fitei por algum tempo, enquanto pensava em uma forma de acabar com ele. Com toda coragem que me restava, fui na direção dele. Com a faca em punho, queria ver se ele manteria aquele jeito superior quando eu acertasse o seu peito. Começamos uma batalha. Rolamos no chão. Eu tentava acabar rápido com aquilo, ele se defendia como podia. Até que se fez um silêncio profundo. Eu senti um líquido quente escorrer do meu pescoço. Era sangue. Naquele instante, tudo ficou claro. Eu ainda segurava a faca, quando tive um súbito momento de lucidez. Não havia ninguém ali, tudo foi somente um devaneio de um bêbado. Lá fora o sol nascia despertando os moradores da capital para mais um dia, e a vida seguiria seu curso normalmente.


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