Natalí Daltoé (conto baseado na história de um colega)
Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008
UM JOGO, UM ÔNIBUS, UMA NOITE E UM CINTO
Eu tenho 9 anos, mas já sei agir como meu pai. Cresci o suficiente para poder escolher minhas roupas, meu estilo musical e até literário. Eu espalho na escola que li clássicos em inglês e que ouço Beatles. Na verdade, gosto mesmo é do programa da Xuxa (mas isso fica só entre nós!).
Eu não tenho medos infantis. Para ser sincero, apenas uma vez senti medo… era um dia realmente frio. Eu e meu pai estávamos fardados de vermelho e branco, indo para o Beira-rio. Dia de clássico, como ele dizia. Fomos de ônibus – é difícil estacionar perto do estádio. Durante o jogo, meu pai gritava mais do que todos os outros colorados juntos. Em alguns momentos, cheguei a pensar que o pescoço dele iria explodir, pois mudava de cor constantemente: vermelho, roxo, verde… Eu estava me divertindo, mas, para falar a verdade, não enxergava muita coisa.
Pedi, várias vezes, dinheiro para comprar cachorro-quente, mas meu pai só me ouviu nos últimos minutos, quando já estava 4×0 para o Inter. A fila do cachorro era grande, e o tio demorava preparando, porque também queria assistir à partida. Ele terminou o meu no exato momento em que o juiz apitou o fim do jogo. Todos se amontoavam nos portões, e fui me metendo também. Desbravava aquele mar de pernas conseguindo passar sem muita dificuldade entre os vãos. Resolvi esperar meu pai na parada de ônibus onde descemos. Eu, como um bom homem, havia gravado bem o caminho. Na parada estavam muitos colorados e um cachorrinho sujinho e magrinho, a quem dei o resto do meu lanche e chamei de Toby. Só o refri ele não quis aceitar. Fiquei lá não sei por quanto tempo… até cansar. Todos os colorados já tinham entrado nos ônibus.
Decidi voltar para casa sozinho. Entrei no primeiro ônibus que passou. Escalei e pulei por cima da roleta. Passar por baixo é coisa de criança. Todos os bancos estavam ocupados. Depois de um tempo em pé, cansei e sentei no chão.
Não sabia até quando deveria ficar no ônibus. Não reconhecia nada que passava lá fora. Aproveitei que o motorista abriu a porta para uma vovozinha e pulei atrás. Desci imaginando que reconheceria algum lugar ou alguém, mas isso não aconteceu. Mas não estava perdido, eu sabia usar o orelhão! Era só encontrar algum. Perguntei a um velho sujismundo, deitado num banco, se ele sabia onde eu poderia encontrar um. Acho que ele não entendeu bem a pergunta, porque me ofereceu a cachaça que estava tomando. Eu poderia beber, afinal, meu pai bebe, e tudo que ele faz eu sei que também posso. Só não aceitei porque ele era desdentado, e eu teria que tomar no bico. Já estava bem escuro, e tudo que queria era estar em casa jogando Mário no super-nintendo.
Foi nesse momento que encontrei um policial de verdade. Contei todo o meu dia para o Jorge. O nome dele era Jorge. Ele perguntou onde eu morava, mas eu tinha acabado de me mudar para Porto Alegre, o endereço da velha casa de Guaíba não servia, e o novo eu não conseguia lembrar. Disse que talvez o nome da rua fosse General alguma coisa, mas o Jorge também deve ser novo por aqui, porque disse que não encontraria essa rua tão facilmente. Também não conseguimos telefonar porque na hora não conseguia lembrar bem se o número terminava com 515, 551, 155 ou 893. Mesmo assim o Jorge não desistiu e resolveu telefonar para as rádios da cidade, avisando que eu ficaria na delegacia esperando resgate.
Enquanto esperava pedi uma rosquinha. Vi num filme que os policiais adoram rosquinha. Mas o Jorge disse que não tinha e me deu um sanduíche com gosto de areia e um café preto. Me senti importante tomando o café preto. Já sentia até que podia coordenar a equipe do Jorge. Mas meu pai cortou meu barato de gente grande quando chegou na salinha do Jorge e foi direto puxando o cinto. E chorei por perceber que meu dia de adulto não passou de uma estripulia de criança para meu pai. Não tive medo do estádio cheio, de pegar ônibus sozinho, do frio, do bêbado, nem da noite, mas, naquele momento no fim do dia, me senti a mais medrosa e indefesa das criaturas.