Epifabiconia

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Posts de Maio, 2008

Marcus Vinícius Pernes (conto baseado em notícia)

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

ALFREDO QUER COMER

 

 

            Alfredo veio costurando o engarrafamento, cortando os cruzamentos, subindo pelas calçadas e suando dentro do terno – até mesmo os semáforos eram todos Ritinha: o vermelho eram os lábios da Ritinha, o amarelo eram os cabelos da Ritinha, o verde eram os olhos da Ritinha. Largou o carro de qualquer jeito na vaga da garagem, nem lembrou de ligar o alarme, e subiu pelo elevador já tirando os sapatos, desafivelando o cinto, afrouxando o nó da gravata. Tinha sido um dia de cão, mas agora ele entraria pela porta do seu apartamento como um rei, um vencedor, e entraria na Ritinha como se aquelas pernas fossem os portões do paraíso.

            Não, não entraria. Ele demorou demais no trânsito, ou talvez tenha sido o elevador, ou o último cliente do dia. A verdade é que a novela já tinha começado. Lá estava Ritinha, sentada no sofá, olhando para Tony Ramos, e lá estava Tony Ramos olhando para Ritinha. Não dava para negar, eles tinham química, eles tinham feeling, eles se entendiam. Não dava para competir. Alfredo era um bom perdedor: engoliu a comida de ontem junto com a derrota de hoje e foi para o banho.

Ritinha não sabe, mas foi com ele.

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Matheus Hugo (conto com base em notícia)

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

MALDITA MURIÇOCA

 

Mudança: era disso que minha vida precisava. Vivia como uma múmia no meio da multidão, cercada naquele lugar. Sentia-me tão sozinha desde que minha mãe enlouquecera, coitada. Ela foi murchando aos poucos até desaparecer. Meu pai. Ah! Esse vivia por aí, de rodeio em rodeio, fazendo mutreta e ainda por cima dizia que aquele era o seu trabalho. Quando finalmente achei que tudo ia melhorar, pois conhecera um mulato musculoso por quem me apaixonei, estava enganada. Mulherengo! Muquirana! Fiz uma muvuca quando ele me chifrou com aquela holandesa, toda malhada, que não passava de uma mundana.

Mas um dia decidi que tudo seria diferente. Perseguiria meus sonhos deixando o preto e branco do passado para trás. Sairia em busca de uma vida multicolorida. Aquelas muralhas não me impediriam de conhecer o mundo. Queria viver de música, conhecer um muçulmano, comer musse de limão e virar musa de capa de revista.

Naquela manhã saí para dar início aos meus planos. A estrada era perigosa, à beira um penhasco, mas isso não me impediria de continuar minha jornada. Só não contava com aquela maldita muriçoca. Senti uma picada na perna e, quando me virei para olhar o que havia acontecido, resvalei num musgo e caí desfiladeiro abaixo. Mutilada sobre um carro, as últimas palavras que ouvi, antes de perder os sentidos, foram: “Não acredito nisso! Não acredito nisso! Uma vaca voadora!”.

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Marlova Mello (conto baseado em notícia)

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

                                                             SUICÍDIO

 

      Eram 19 horas, eu estava sentado em um bar na Andradas. Ouvi os seus passos e senti meu corpo todo arrepiar. Sentou-se ao meu lado e ficou me olhando com seus olhos mórbidos. Aterrorizado, levantei e sai, caminhei pela Andradas em busca de outro lugar para continuar bebendo. Escurecia cedo em Porto Alegre no inverno, e a avenida começava a ficar vazia, mas eu continuava em busca de um copo de vinho barato. Sentei com o copo na minha frente, ao meu lado um bêbado qualquer. Senti um alívio. De madrugada, a volta solitária para casa. Morava bem perto, mas a bebida, minha mais fiel companheira, tornava a caminhada de mais longa. Escutei um barulho, tive certeza de que o desgraçado me seguia. Percebi claramente seu sorriso cínico bem atrás de mim. Segurei a garrafa bem forte e me virei meio cambaleante; eu o vi ali parado, debochando de mim. Tentei atirá-la bem na cabeça dele, mas o infeliz era rápido, e tudo que consegui foi ver o último gole ser desperdiçado no chão. Gritei desesperado e só depois percebi que meu pé sangrava. Arrastei-me até minha casa. Podia pedir ajuda a minha mãe, mas desisti. Ela certamente viria com aquela conversa de que estou bebendo demais, de que não existe ninguém me perseguindo, que era tudo imaginação. Peguei na estante uma garrafa de uísque e me sentei no sofá. Esperava pelo fim daquela madrugada; aquele covarde não aparecia durante o dia. Adormeci por alguns minutos. Um ruído na cozinha me acordou; uma panela estava começando a pegar fogo. Joguei-a na pia, quando escutei sua risada sarcástica; ele estava ali se divertindo com a situação. O tormento teria fim! Decidido, peguei uma das facas que usava para cortar carne. Iria expulsá-lo definitivamente da minha vida. Ele estava na sala de pé com seu ar arrogante, me desafiando. Eu o fitei por algum tempo, enquanto pensava em uma forma de acabar com ele. Com toda coragem que me restava, fui na direção dele. Com a faca em punho, queria ver se ele manteria aquele jeito superior quando eu acertasse o seu peito. Começamos uma batalha. Rolamos no chão. Eu tentava acabar rápido com aquilo, ele se defendia como podia. Até que se fez um silêncio profundo. Eu senti um líquido quente escorrer do meu pescoço. Era sangue. Naquele instante, tudo ficou claro. Eu ainda segurava a faca, quando tive um súbito momento de lucidez. Não havia ninguém ali, tudo foi somente um devaneio de um bêbado. Lá fora o sol nascia despertando os moradores da capital para mais um dia, e a vida seguiria seu curso normalmente.

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Natalí Daltoé (conto baseado na história de um colega)

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

UM JOGO, UM ÔNIBUS, UMA NOITE E UM CINTO

 

Eu tenho 9 anos, mas já sei agir como meu pai. Cresci o suficiente para poder escolher minhas roupas, meu estilo musical e até literário. Eu espalho na escola que li clássicos em inglês e que ouço Beatles. Na verdade, gosto mesmo é do programa da Xuxa (mas isso fica só entre nós!).

Eu não tenho medos infantis. Para ser sincero, apenas uma vez senti medo… era um dia realmente frio. Eu e meu pai estávamos fardados de vermelho e branco, indo para o Beira-rio. Dia de clássico, como ele dizia. Fomos de ônibus – é difícil estacionar perto do estádio. Durante o jogo, meu pai gritava mais do que todos os outros colorados juntos. Em alguns momentos, cheguei a pensar que o pescoço dele iria explodir, pois mudava de cor constantemente: vermelho, roxo, verde… Eu estava me divertindo, mas, para falar a verdade, não enxergava muita coisa.

Pedi, várias vezes, dinheiro para comprar cachorro-quente, mas meu pai só me ouviu nos últimos minutos, quando já estava 4×0 para o Inter. A fila do cachorro era grande, e o tio demorava preparando, porque também queria assistir à partida. Ele terminou o meu no exato momento em que o juiz apitou o fim do jogo. Todos se amontoavam nos portões, e fui me metendo também. Desbravava aquele mar de pernas conseguindo passar sem muita dificuldade entre os vãos. Resolvi esperar meu pai na parada de ônibus onde descemos. Eu, como um bom homem, havia gravado bem o caminho. Na parada estavam muitos colorados e um cachorrinho sujinho e magrinho, a quem dei o resto do meu lanche e chamei de Toby. Só o refri ele não quis aceitar. Fiquei lá não sei por quanto tempo… até cansar. Todos os colorados já tinham entrado nos ônibus.

Decidi voltar para casa sozinho. Entrei no primeiro ônibus que passou. Escalei e pulei por cima da roleta. Passar por baixo é coisa de criança. Todos os bancos estavam ocupados. Depois de um tempo em pé, cansei e sentei no chão.

Não sabia até quando deveria ficar no ônibus. Não reconhecia nada que passava lá fora. Aproveitei que o motorista abriu a porta para uma vovozinha e pulei atrás. Desci imaginando que reconheceria algum lugar ou alguém, mas isso não aconteceu. Mas não estava perdido, eu sabia usar o orelhão! Era só encontrar algum. Perguntei a um velho sujismundo, deitado num banco, se ele sabia onde eu poderia encontrar um. Acho que ele não entendeu bem a pergunta, porque me ofereceu a cachaça que estava tomando. Eu poderia beber, afinal, meu pai bebe, e tudo que ele faz eu sei que também posso. Só não aceitei porque ele era desdentado, e eu teria que tomar no bico. Já estava bem escuro, e tudo que queria era estar em casa jogando Mário no super-nintendo.

Foi nesse momento que encontrei um policial de verdade. Contei todo o meu dia para o Jorge. O nome dele era Jorge. Ele perguntou onde eu morava, mas eu tinha acabado de me mudar para Porto Alegre, o endereço da velha casa de Guaíba não servia, e o novo eu não conseguia lembrar. Disse que talvez o nome da rua fosse General alguma coisa, mas o Jorge também deve ser novo por aqui, porque disse que não encontraria essa rua tão facilmente. Também não conseguimos telefonar porque na hora não conseguia lembrar bem se o número terminava com 515, 551, 155 ou 893. Mesmo assim o Jorge não desistiu e resolveu telefonar para as rádios da cidade, avisando que eu ficaria na delegacia esperando resgate.

Enquanto esperava pedi uma rosquinha. Vi num filme que os policiais adoram rosquinha. Mas o Jorge disse que não tinha e me deu um sanduíche com gosto de areia e um café preto. Me senti importante tomando o café preto. Já sentia até que podia coordenar a equipe do Jorge. Mas meu pai cortou meu barato de gente grande quando chegou na salinha do Jorge e foi direto puxando o cinto. E chorei por perceber que meu dia de adulto não passou de uma estripulia de criança para meu pai. Não tive medo do estádio cheio, de pegar ônibus sozinho, do frio, do bêbado, nem da noite, mas, naquele momento no fim do dia, me senti a mais medrosa e indefesa das criaturas.

 

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Rita Apoena (conto baseado em notícia)

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

CARRINHO


Eu não sei o que fazer. Um deles me olha, por entre os destroços e estende a mão para mim. Duas lágrimas descem, cortando a minha face em tiras, e despencam no chão. De nada servem. De nada me valem. O outro me olha com tanta esperança. Como se eu pudesse recolher aquele sangue e, nas nuvens mais brancas, desenhar um cata-vento, desenhar um coração. E eu não sei o que fazer. Eles me pedem com os olhos – e com a ponta dos dedos – que eu retroceda o tempo. Estanque o último sangue que puderam guardar na conchinha da mão. Brincadeira de passa-anel. Mas eu sou só um menino e não sei o que fazer quando os carrinhos de brinquedo batem de verdade. Quando o fim entra pelo ferimento, e a vida se esvai pelo asfalto,

 

 

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Taíse Machado (notícia baseada em conto)

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

FIM DA LINHA PARA O COBRADOR

Hoje, um mês após o último atentado de uma série de homicídios, foram presos Antônio de Souza – o Louco da Magnum, como ficou conhecido popularmente – e sua amante e cúmplice, Ana Palindrômica. Após um longo período de buscas, ambos foram encontrados na cidade de Criciúma/SC, onde Antônio confessou a responsabilidade pela seqüência de crimes – dentre eles, estupro e homicídio-, ocorridos no ano de 2007, no estado do Rio de Janeiro.

Segundo o próprio acusado, suas atitudes possuíam caráter de vingança; não aceitava as diferenças sociais e acreditava que, através desses atos, estaria cobrando uma possível dívida da sociedade para com ele e sua classe. Antônio se autodenominava “o cobrador”. Em seu depoimento, afirma: “Quando minha cólera está diminuindo, e eu perco a vontade de cobrar o que me devem, eu sento na frente da televisão e em pouco tempo meu ódio volta”.

Souza também alega a participação de Ana em seus atos: segundo ele, após conhecê-la, descobriu sua missão – mostrar ao mundo inteiro do que era capaz. Em seu arsenal havia uma Magnum com silenciador, um Colt Cobra 38, duas navalhas, uma carabina 12, um Tauros 38, um punhal e um facão. Dentre as primeiras vítimas estão: Dr. Carvalho (dentista,42 anos), um jovem tenista (assassinado enquanto dirigia sua Mercedes, no bairro Miguel Couto), um comerciante ilegal de armas de fogo, um casal da alta sociedade que voltava de uma festa na Vieira Souto e uma jovem de 25 anos, estuprada em seu próprio apartamento. Antônio refere-se a esses crimes como algo místico do qual se libertou ao conhecer Ana.

No dia 24 de dezembro de 2007, o casal cometeu o ato decisivo dessa série, no tradicional Baile de Natal ou “Primeiro Grito de Carnaval”. Após deixarem sua residência, um sobrado na rua Visconde Maranguape, dirigiram-se à zona sul, onde seria realizado o Baile. A bomba pela qual o casal se diz responsável, fez dezenas de vítimas, entre elas, turistas estrangeiros e executivos cariocas.

Numa entrevista realizada com a proprietária do sobrado, Dona Clotilde, ela afirma que Antônio demonstrava ser um bom rapaz, sempre muito dedicado e prestativo. Ele próprio afirma ser “justo”: quem vivia com sacrifício e trabalho árduo era poupado.

Antônio de Souza e Ana Palindrômica devem ser removidos para o presídio central do Rio de Janeiro ainda essa semana.

 

Notícia baseada no conto O Cobrador, Rubem Fonseca

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Raíssa Nothaft

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

UMA GERAÇÃO QUE NASCEU PÓSTUMA

 

Era uma tarde chuvosa. Daquelas tardes espessas e úmidas que somente existem sob o manto de Porto Alegre. A cidade dos odores se lavava e exalava apenas o da terra molhada. Ela caminhava e sentia um frio passando pelo seu corpo e um calor que a enchia por dentro. Era um coração batendo em seu ventre, o qual já amava enlouquecidamente.

A tarde do dia oito de novembro guardava uma surpresa feliz a um povo já muito sofrido. Ao passo que escurecia, uma neblina de interrogação ia se formando em torno do destino de uma história e de um sonho antigo já muito desgastados pela incompetência dos homens.

De repente uma dor. Ela se sentia perdida e só. Uma dor física que ela conhecia perfeitamente o motivo e já esperava, mas que a atingiu de forma tão intensa e interna, que pareceu como se alguém a desmontasse por dentro, destruísse seus sonhos.

Um estrondo. A primeira de muitas batidas que fariam ruir aquele símbolo de opressão. Pó. Um povo liberto que gritava, sorria. Sentia um dos momentos mais emocionantes que o mundo ocidental já vivera.

Uma mão pousou em seu ombro. Não se preocupe, tudo ficará bem. Silêncio.

O dia amanhecera limpo naquela cidade que já fora a morada de seus familiares. O concreto de ódio, que oprimia aquela gente, transformava-se em poeira que coloria o ar sob os reflexos do sol. Um mesmo povo não mais dividido por ideologias.

Um choro. Um sonho seu que nascia, enquanto outro, mal sabia ela, estava a ruir.

A notícia chega de Berlim: o desmantelamento de um sistema. A esperança de uma sociedade perfeita e igual havia desaparecido de seus pensamentos. Dera origem a uma geração que já nascera morta.

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Camila Martins (notícia com base em conto)

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

CIDADE FICA PERPLEXA COM ANOMALIA NA ORELHA

Homem, vítima de estranho caso de crescimento da orelha, morre sufocado

 

Morreu, na noite desta quarta-feira, Inácio de Aurículo Crescente, vítima de sufocamento. Segundo os médicos, Inácio foi vítima de um caso anormal de crescimento da orelha. A causa ainda não é conhecida, mas é provável que seja uma herança genética.

Devido a essa anomalia, Inácio foi sufocado pela sua própria orelha. Os primeiros pedidos de socorro, registrados no começo da tarde, mencionavam que a pensão onde Inácio morava havia sido tomada por sua orelha e que a porta do seu quarto havia sido arrebentada pela força do fenômeno. Os hóspedes entraram em pânico e chamaram a polícia e o corpo de bombeiros. Alguns afirmaram que, durante a noite, ouviram barulhos estranhos de objetos sendo quebrados, provavelmente pelo crescimento descontrolado das orelhas de Inácio.

- Isso nunca aconteceu comigo! Ontem à noite minhas orelhas começaram a ficar pesadas e agora elas não param de crescer! Não sei mais o que fazer, já estou ficando desidratado… – relatou Inácio, horas antes de morrer.

O fato atraiu muitos curiosos que, aproveitando a situação, roubaram diversos pedaços de carne humana, provindas da orelha do homem. Muitos açougueiros chegaram ao local para ajudá-lo, cortando pedaços da sua orelha, estocando o que conseguiam. Mas não havia mais como controlar o crescimento. Os policiais e os bombeiros tentavam evacuar o local e deixar Inácio respirar, mas, quanto ao crescimento da orelha, nada podiam fazer. Quanto mais era cortada, mais ela crescia. O povo chamou o prefeito, que cobrou providências do governador, que, enfim, passou a responsabilidade ao presidente.

- Podemos considerar a situação alarmante. Já tomamos as devidas providências, mas não há mais o que fazer. Estamos perplexos, nunca vimos algo parecido! – afirmou o prefeito. Logo após essa declaração, Inácio foi definitivamente encoberto por sua própria orelha e não conseguiu mais respirar.

Nossa equipe teve acesso a colegas de trabalho de Inácio. Eles relataram que ele era um homem quieto e discreto, por isso pouco se sabia a respeito de sua vida particular.

- Ele chegava ao escritório sempre cedo, não cumprimentava ninguém. Apesar disso, era um ótimo profissional, sempre fazendo horas-extras. – relatou o chefe de Inácio, Rodrigo Figueroa.

Entre as poucas informações obtidas sobre o homem, sabe-se que ele tinha 35 anos, era solteiro, morava sozinho e trabalhava como escriturário de uma firma de tecidos.

A carne que sobrou da orelha de Inácio será doada a comunidades carentes.

 

 Notícia com base no conto “O homem cuja orelha cresceu”, de Ignácio de Loyola Brandrão.

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Natália Kern (diálogo)

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

 IMAGINA SE TIVESSE SIDO ASSIM

  

Eva – Ai, eu não concordo.

Deus – O que tu não concorda dessa vez?

Eva – Não entendi por que ele tem que ser bem maior que eu…

Deus – Como assim, Eva? Eu já te expliquei…

Eva – Eu sei, mas eu não entendi! Para mim, tem que ser tudo igual entre eu e ele.

Deus – Mas, mulher, tu não acha bom ter alguém para te proteger? Alguém que te defenda?

Eva – É, bom é.

Deus – Então… até porque tu é frágil. Alguém precisa zelar pela tua vida.

Eva – É, né? Eu sou frágil mesmo.

 

Deus agradece a Ele mesmo por Eva ter concordado, afinal, ela estava há horas em volta da nova criação divina.

 

Eva – Mas, Deus! Tu acha que eu vou querer que o meu protetor tenha um nariz desse tamanho? Por favor, né!

Deus – Eva, dá licença? A criação é minha!

Eva – É, mas quem vai ter que andar por aí com a ‘tuuua’ criação sou eu e não tu, esperto.

Deus – ‘Tá’, tu quer, então, que ele tenha um nariz como o teu? Pequeno, bonitinho?

Eva – ‘Iiiisso’, Deus! Agora tu me entendeu!!

Deus – E tu acha que uma pessoa com traços finos e delicados, como os teus, vai passar a imagem de protetor? De alguém forte?

Eva – Huum…não?

Deus – Não, né, Eva!

Eva – ‘Pois é’, nisso tu tem razão, mas então só diminui um pouco, assim fica do gosto dos dois, pode ser?

Deus – ‘Tá’ bom… assim está bom?

Eva – É, né… não tem tu, vai tu mesmo.

Deus – Ai ,Céus! Antes que eu continue… tu tem mais alguma coisa pra reclamar, Eva?

Eva – Acho que não…

 

Deus respira fundo, sente um alívio e recomeça a trabalhar na sua criação.

 

Eva – Só mais uma coisinha…

Deus – Céus! ‘Tô’ perdendo a paciência, Eva! Fala de uma vez! E que seja a última intervenção!

Eva – ‘Aaaai’! Que stress! Não precisa ser rude! Só quero saber se vai demorar muito para ficar pronto!

Deus – Olha, se tu continuar me ‘atucanando’ e perguntando mil coisas, vai demorar muito! Mas se tu for dar uma voltinha por aí, eu termino rapidinho!!

Eva – Eita! ‘Tá’, ‘tô’ saindo… mas olha, quanto tu tiver acabando, me chama pra eu ver, hein? Tem que passar pelo teste de qualidade aqui, viu?

Deus – ‘Tá’, Eva, ‘tá’! Sabia que eu devia ter feito o Adão primeiro!!

 

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Pablo Corroche (história do colega)

Publicado por epifabiconia em Maio 12, 2008

NO LIMIAR DA INSANIDADE

 

De repente, senti-me imerso em escuridão. Poucas horas antes, quando tudo entrou em repouso, aquela luz parecia ser a única ligação que eu ainda tinha com o mundo real. Era como se ela fosse capaz de conduzir, a qualquer momento, alguém que me tirasse daquela situação.

Mas não importava o que eu fizesse, ninguém parecia me escutar. O espaço reduzia-se mais a cada minuto, e o ar ficava rarefeito. O silêncio era insuportável, a ponto de permitir que eu escutasse os meus sons internos, e temesse, por alguns momentos, que meu corpo explodisse para entrar em equilíbrio com o meio externo.

A noção de tempo havia se perdido, minhas idéias tornavam-se confusas, dispersavam-se aleatoriamente, no imenso vazio que tomava conta de tudo. A luz que fazia a minha conexão com o mundo exterior começou a irritar-me também. Iluminava e tornava as paredes mais estreitas. No entanto, o sufoco causado pela iluminação logo deu lugar a uma angústia ainda mais terrível: a luz apagou.

Eu sentia esvaírem-se os últimos resquícios de lucidez presentes em minha mente, senti-me entregue aos sabores da insanidade, perguntava-me onde estava e há quanto tempo. Tinha medo de pensar racionalmente, isto podia me trazer a perdição cabal, para tanto bastava que eu concluísse que estava louco. Por outro lado, a ausência de pensamentos também não era boa, podia ser definitiva. Comecei a duvidar que ainda encontrava-me ali, talvez estivesse louco realmente e já tivesse sido levado para outro lugar sem perceber.

Quando tudo parecia acabado, sem grandes perspectivas, o inesperado aconteceu. O elevador voltou a funcionar, como se nada tivesse acontecido, e eu estava são e salvo.

 

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