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Posts de Junho, 2008

Mauni Oliveira (dissertação)

Publicado por epifabiconia em Junho 6, 2008

Internet: Liberdade ou Perigo?

 

Há cerca de duas décadas, para se conhecer o “mundo”, era preciso viajar; enfrentar horas dentro de um avião e – ainda pior – investir uma considerável soma em tal empreitada. Quem não pudesse, ou não quisesse, arcar com tamanhos custos, tinha de se contentar com revistas, fotos e vídeos. Com o advento da internet, esse cenário mudou: já se pode “viajar” sem sair de casa, passar o tempo que se quiser descobrindo cada lugar. Uma liberdade que parecia impossível.

Atualmente a palavra computador virou quase sinônimo de internet. É como se essa máquina, que foi a grande descoberta de outro tempo, perdesse todos os seus “poderes” se não estiver ligada à rede. Todos os dias, milhares de pessoas trocam mensagens eletrônicas, acessam suas contas bancárias, compram e vendem objetos e serviços – até mesmo pedem pizza – virtualmente. Com apenas alguns “cliques” é possível aprender algo sobre a história da China, comprar um livro, conhecer alguém com interesses semelhantes, trocar informações com pesquisadores de qualquer lugar do mundo, ver a previsão do tempo, enfim, as possibilidades são praticamente inesgotáveis. Mas toda moeda possui dois lados.

É também através da internet que ficamos expostos a uma série de perigos. Dentre os mais conhecidos estão os vírus e os hackers. Assim que conectamos nosso computador à web, estamos ameaçados por eles. Por mais que tentemos nos prevenir, instalando e atualizando antivírus e firewalls, há sempre algo novo. É preciso desconfiar de e-mails com arquivos em anexo e links, mesmo quando o nome do remetente é conhecido. Convém ainda, ficar atento ao utilizar sites para compras: alguns não são seguros e outros apresentam empresas que nem sequer existem – um golpe que atrai vítimas com ofertas “imperdíveis”.

Um outro perigo esconde-se em sites de relacionamentos, como Orkut e Hi5, e salas de bate-papo. É impossível ter certeza de quem é a pessoa com quem se está “conversando” ou quem realmente tem acesso aos nossos dados. Esse risco pode aumentar quando quem acessa a internet é um adolescente ou uma criança. Como a rede é de acesso público, não há como evitar que pedófilos ou traficantes, por exemplo, utilizem-na para alcançar seus objetivos.

Contudo, não cabe classificar a internet como boa ou má, visto que é apenas uma ferramenta. Efetivamente ela proporciona a diminuição de muitas distâncias e barreiras: as informações circulam com maior rapidez e, mesmo o contato humano é facilitado. O que convém ressaltar é que precisamos ter consciência e refletir sobre como e para que a utilizamos e o quanto de informações pessoais vale a pena disponibilizar on-line. O bom uso de qualquer recurso, seja tecnológico ou não, é um processo de aprendizado, o qual nos confere a liberdade para decidir o que, de fato, é uma vantagem ou um provável risco.

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Tiago Cord (dissertação)

Publicado por epifabiconia em Junho 5, 2008

VAGABUNDOS OU TRABALHADORES?

 

A maioria das pessoas, ao ver um morador de rua caminhando em sua direção, instantaneamente segura sua carteira, confere se a mochila está bem fechada e, se possível, desvia ou troca de rumo rapidamente. Em geral, faz isto quase de maneira inconsciente, por puro preconceito, pois, em sua perspectiva, todo morador de rua é vagabundo e ladrão. Estereótipos que, segundo pesquisas, não condizem com a realidade brasileira.

Após pesquisa realizada pela Unesco nas principais cidades do Brasil no segundo semestre de 2007, observou-se que, do total de moradores de rua entrevistados, cerca de 80% possui alguma fonte de renda, executando atividades como: catador de materiais recicláveis, em geral latinhas de alumínio e papelão; guardador de carros nas ruas; empregados na construção civil e de limpeza, além de ajudantes de estiva em portos.

Outro fator levantado pela pesquisa são os motivos que levaram essas pessoas, na maioria homens, a essa triste situação. Entre as circunstâncias mais comuns estão o alcoolismo, o consumo de drogas ilícitas, desavenças familiares culminando com a desestruturação do lar e o desemprego. Estes problemas não chegam nem ao menos perto de uma solução, pois 89% dos entrevistados declararam não fazer parte de nenhum dos programas governamentais existentes, por falta de oportunidade e de acesso.

Com base nessa pesquisa, podemos observar que, ao contrário do que a maioria da população acredita, os moradores de rua não são reduzidos a vagabundos delinqüentes. Estas pessoas são, na sua maioria, trabalhadores que tiveram sua vida suprimida por problemas complexos, e por isto hoje vivem hoje à margem da sociedade. Não podemos reduzi-los a criminosos, segregando esta parte da população já tão castigada pela vida.

Ao invés de julgarmos, devemos pensar em uma maneira de ajudá-los a viver de modo mais digno. Medidas assistenciais como a criação de albergues comunitários, acompanhamento psicológico a famílias de baixa renda, campanhas contra o alcoolismo, se não são suficientes para solucionar o problema, podem ao menos diminuir o número de pessoas que acabam morando embaixo das pontes.

Precisamos desmistificar o fato de a população de rua ser composta de vagabundos e ladrões e nos conscientizar que, ao invés de nossas carteiras, eles querem e precisam da nossa ajuda.

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Leandro Rodrigues (mote Tchekhov)

Publicado por epifabiconia em Junho 2, 2008

A APOSTA MAIS ALTA

Estava tenso, mas não poderia ser diferente. Viajaram quase novecentos quilômetros para estar ali, conheceram-se melhor durante a viagem, e reconheceram afinidades. Receoso pela possibilidade de ser descoberto, demorou alguns minutos até relaxar e perceber as oportunidades que a situação proporcionava. Homem de rígidos padrões morais, foi convencido a viver aquela experiência e, já que estava ali, que fosse de verdade. Preferiu acreditar que as luzes multicoloridas piscando freneticamente lhe deixaram inebriado; bebeu aqueles drinques como se fossem água; a garganta ainda seca.

Não era a primeira vez que entrava em um cassino, mas seria seu “debut” nas apostas, e isso lhe causou ansiedade. Apostou pouco, no começo, e entendeu como o jogo funcionava. Com a astúcia que lhe era própria conseguiu, em pouco tempo, duplicar o valor inicial. Chamou a atenção. O nervosismo  inicial cedeu lugar à empolgação. Sentia-se livre. Poderia, ali, ser diferente, ou melhor, ser ele mesmo, despir-se das personagens que a sociedade lhe impunha. Baseado nessa certeza, puxou para si sua companhia, e apostou alto. Deu-lhe um grande beijo – bem recebido, mas não sem surpresa –, posicionou suas fichas e rolou os dados. “Alea jacta est”, pensou. A sorte foi lançada. Naquela noite  sorte parecia querer lhe acompanhar. Atônito com o resultado, calculou incrédulo que aqueles dados lhe renderam um milhão. Um milhão! Os instantes entre a constatação e o anúncio de sua vitória vieram acompanhados de uma estranha, mas agradável, vertigem. Súbito parecia que o cassino inteiro girava a seu redor. Achou melhor parar por ali. A sorte não dura pra sempre, pensou.

Foram para o quarto do hotel, cansados mas extasiados com a noite, que ainda não havia terminado. Pediram o melhor champanhe, afinal precisavam comemorar em grande estilo. Tudo correu tão perfeitamente que ele achou até piegas, tal qual um filme hollywoodiano. Amaram-se a noite inteira, sem pudores nem vergonhas, e só adormeceram quando o sol já ia alto.

Acordou às quatro da tarde. Nunca acordara àquele horário, mas, dessa vez, permitiu-se. Silêncio no quarto, olhou para o lado e percebeu-se sozinho no grande leito da melhor suíte do hotel. Foi ao banheiro, e lá achou um bilhete, grudado no espelho com um chiclete. “A noite foi maravilhosa, inesquecível. Sinto muito, mas não resisti à tentação. Beijos. Horácio”. A mesma vertigem da noite anterior, agora nada agradável – seria o champanhe? – lhe causou náuseas, e vomitou ali mesmo, na luxuosa pia daquele asséptico banheiro.

Poderia ter considerado aquela noite uma emocionante aventura, onde pôde assumir aspectos recônditos de sua personalidade, conhecendo o paraíso e o purgatório no espaço de doze horas. Não superou. Em seu funeral, apenas um arrependido Horácio compreendeu aquele ato derradeiro. E chorou, muito, pelo amor que vendeu ao módico valor de um milhão de euros. Ao contrário de Josias, Horácio não sabia apostar.

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