A PÊXA DA HOLANDA
Estava no segundo mês de meu intercâmbio na Holanda. Imagino que você deva ouvir muito sobre como são as coisas por lá: jovens, drogas, muita liberdade em todos os sentidos e (pasmem!) a liberação de sexo num de seus parques mais movimentados.
Mas, por favor, não fique alimentando sua imaginação. Eu sempre fui uma menina “calma”, sem muita atração por esse tipo de “liberações”, mas não dispensava uma boa festa e umas biritas pra aquecer. Minha mãe: uma perua, mas uma “freirinha” no quesito “bons costumes”, sempre foi “cheia de dedos” para conversar sobre sexo, drogas e sobre o que rolava nas raves. Meu pai: um estilo mais conservador e superprotetor. Foi difícil convencê-los de minha ida para lá. Queria um pouco de independência, mas isso era tudo o que eles não desejavam me dar. Sabendo de seus grandes incentivos ao estudo, encontrei minha “carta na manga”:
-Intercâmbio? Outro país, outras pessoas, outros amigos?? E nosso passeio no shopping todas as quintas? Como vou ficar sem minha filhinha querida? – minha mãe em surto.
-Mas são só seis meses. E é pra estudar inglês! Pra investir no meu futuro, como vocês sempre dizem.
-Filha, nós temos que zelar por você. Não sei não..esse país..
Depois de dezessete anos de convivência, acho que aprendi alguma coisa sobre “como convencer meus pais de algo argumentando com seus próprios argumentos”. E sim, eu era mimada.
Dois meses depois, eu estava na Holanda. Levei um notebook, que eu carregava pra lá e pra cá e que eu usava para manter contato com o “ninho”. Porém, com o tempo, as conversas pela internet foram diminuindo, fui fazendo novos amigos e não faltavam programações diárias: passeios, festas, viagens…Mesmo assim, sentia muita saudade da família, precisava de alguma companhia que me fizesse sentir mais confortável e acolhida.
Resolvi comprar um peixe. Entrei na loja. Olhei atentamente os aquários.. até que percebi um pequenino peixe dum laranja fosforescente. Nadava rápido, parecia tão enlouquecido quanto minha mãe, desvairada à procura de vestidos no shopping. A cor também me lembrava a extravagância de suas roupas.
-Vou levar esse aqui!, apontei decidida para o ponto do vidro onde se encontrava o suposto “clone animal” de minha mãe.
Animada, voltei para casa segurando cuidadosamente o aquário entre as mãos. Sem muita criatividade, chamei-lhe “Pêxa”. P-Ê-X-A… lembrava peixe, que era do “português”, língua do Brasil, o que trazia logo meus pais à mente.
Afeiçoei-me tanto ao bichinho que acabei me tornando superprotetora: dava-lhe comida muito mais do que o necessário. Mas só percebo isso agora. O peixe começou a sofrer mudanças.
Triste, retomei o contato com minha família. Minha mãe, que ainda não havia sido informada que o nome “Pêxa” correspondia ao meu pequeno animal de estimação, começou a se assustar com minhas conversas pela internet. Angustiada e muito reservada para alguns assuntos, ao ler meus textos fazia suas próprias interpretações:
“Ai, mãe, tu nem sabe..”
“O que houve, filha?”
“É a minha pêxa, ela tá tão estranha ultimamente… …não sei o que está acontecendo, ela tá meio diferente”
Vejo, pela câmera, a imagem de minha mãe com os olhos grudados na tela do computador, embasbacada.
“err..como assim, querida?”
“tá diferente…
…eu olho pra ela e parece que ela tá toda arranhada..”
Vejo, ao fundo, meu pai entrar no escritório. Minha mãe faz sinal para que ele leia a conversa. Se entreolham. Ela, com cara de pavor, pede para que ele tome uma atitude, que responda alguma coisa.
“Arranhada?..filha..você tem tomado cuidado?”
“Ai..acho que sim..mas não sei, ela parece meio esburacada, mordida., não sei o que fez tan..”
Curto-circuito. O notebook “queima”, e a conversa é interrompida.
Três dias depois recebi um “fedex”. No envelope, uma passagem aérea para o Brasil. E uma pequena carta:
“Beatriz,
Não sei o que você andou fazendo por aí e você sabe que não sou homem de muitas palavras. Ligamos para seu celular, mas estava desligado. Ainda estamos procurando assimilar a situação, mas saiba que eu e sua mãe estamos chocados com seu comportamento. Imagino que saiba o que fazer com essa passagem, te aguardamos na quarta-feira. Esperávamos que fosse fazer bom uso da educação que lhe demos.
Antônio Carlos.”