Epifabiconia

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Arquivo da categoria ‘comunicação em LP 2 b’

Mariana Brum (história do colega)

Publicado por epifabiconia em Maio 9, 2008

A PÊXA DA HOLANDA

 

Estava no segundo mês de meu intercâmbio na Holanda. Imagino que você deva ouvir muito sobre como são as coisas por lá: jovens, drogas, muita liberdade em todos os sentidos e (pasmem!) a liberação de sexo num de seus parques mais movimentados.

           Mas, por favor, não fique alimentando sua imaginação. Eu sempre fui uma menina “calma”, sem muita atração por esse tipo de “liberações”, mas não dispensava uma boa festa e umas biritas pra aquecer. Minha mãe: uma perua, mas uma “freirinha” no quesito “bons costumes”, sempre foi “cheia de dedos” para conversar sobre sexo, drogas e sobre o que  rolava nas raves. Meu pai: um estilo mais conservador e superprotetor. Foi difícil convencê-los de minha ida para lá. Queria um pouco de independência, mas isso era tudo o que eles não desejavam me dar. Sabendo de seus grandes incentivos ao estudo, encontrei minha “carta na manga”:

            -Intercâmbio? Outro país, outras pessoas, outros amigos?? E nosso passeio no shopping todas as quintas? Como vou ficar sem minha filhinha querida? – minha mãe em surto.

           -Mas são só seis meses. E é pra estudar inglês! Pra investir no meu futuro, como vocês sempre dizem.

           -Filha, nós temos que zelar por você. Não sei não..esse país..

           Depois de dezessete anos de convivência, acho que aprendi alguma coisa sobre “como convencer meus pais de algo argumentando com seus próprios argumentos”. E sim, eu era mimada.

           Dois meses depois, eu estava na Holanda. Levei um notebook, que eu carregava pra lá e pra cá e que eu usava para manter contato com o “ninho”. Porém, com o tempo, as conversas pela internet foram diminuindo, fui fazendo novos amigos e não faltavam programações diárias: passeios, festas, viagens…Mesmo assim, sentia muita saudade da família, precisava de alguma companhia que me fizesse sentir mais confortável e acolhida.

           Resolvi comprar um peixe. Entrei na loja. Olhei atentamente os aquários.. até que percebi um pequenino peixe dum laranja fosforescente. Nadava rápido, parecia tão enlouquecido quanto minha mãe, desvairada à procura de vestidos no shopping. A cor também me lembrava a extravagância de suas roupas.

           -Vou levar esse aqui!, apontei decidida para o ponto do vidro onde se encontrava o suposto “clone animal” de minha mãe.

           Animada, voltei para casa segurando cuidadosamente o aquário entre as mãos. Sem muita criatividade, chamei-lhe “Pêxa”. P-Ê-X-A… lembrava peixe, que era do “português”, língua do Brasil, o que trazia logo meus pais à mente.

Afeiçoei-me tanto ao bichinho que acabei me tornando superprotetora: dava-lhe comida muito mais do que o necessário. Mas só percebo isso agora. O peixe começou a sofrer mudanças.

Triste, retomei o contato com minha família. Minha mãe, que ainda não havia sido informada que o nome “Pêxa” correspondia ao meu pequeno animal de estimação, começou a se assustar com minhas conversas pela internet. Angustiada e muito reservada para alguns assuntos, ao ler meus textos fazia suas próprias interpretações:

“Ai, mãe, tu nem sabe..”

“O que houve, filha?”

“É a minha pêxa, ela tá tão estranha ultimamente… …não sei o que está acontecendo, ela tá meio diferente”

Vejo, pela câmera, a imagem de minha mãe com os olhos grudados na tela do computador, embasbacada.

“err..como assim, querida?”

“tá diferente…

…eu olho pra ela e parece que ela tá toda arranhada..”

Vejo, ao fundo, meu pai entrar no escritório. Minha mãe faz sinal para que ele leia a conversa. Se entreolham. Ela, com cara de pavor, pede para que ele tome uma atitude, que responda alguma coisa.

“Arranhada?..filha..você tem tomado cuidado?”

“Ai..acho que sim..mas não sei, ela parece meio esburacada, mordida., não sei o que fez tan..”

Curto-circuito. O notebook “queima”, e a conversa é interrompida.

Três dias depois recebi um “fedex”. No envelope, uma passagem aérea para o Brasil. E uma pequena carta:

           “Beatriz,

Não sei o que você andou fazendo por aí e você sabe que não sou homem de muitas palavras. Ligamos para seu celular, mas estava desligado. Ainda estamos procurando assimilar a situação, mas saiba que eu e sua mãe estamos chocados com seu comportamento. Imagino que saiba o que fazer com essa passagem, te aguardamos na quarta-feira. Esperávamos que fosse fazer bom uso da educação que lhe demos.

           Antônio Carlos.”

 

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Diego Ramos (conto com base em notícia)

Publicado por epifabiconia em Maio 9, 2008

INFÂNCIA INTERROMPIDA

 Quando mamãe disse que eu iria morar com a tia Sílvia, fiquei triste, afinal de contas, eu não iria mais estudar na escolinha da tia Salete, e nem brincaria de boneca com a Bruna, a Michelle, a Viviane e a Patricia. Eu não queria morar com a tia Sílvia, mas mamãe disse que criança não tem querer, e que seria melhor para o meu futuro.

Eu gostava da tia Sílvia. Quando mamãe trabalhava na sua casa, ela sempre me dava balinhas vermelhas de morango. Eu adoro balinhas vermelhas de morango, mas eu não queria morar com a tia Sílvia.

A tia Sílvia veio me buscar com o seu carro enorme azul cor do céu. Disse que eu ganharia televisão, bicicleta, computador e, quando crescesse, até um carro. Eu achei bem legal, mas, ainda assim, eu não queria morar com a tia Sílvia. Depois que mamãe me deu um abraço bem apertadinho, daqueles que a gente se sente nas nuvens, parti.

A casa da tia Sílvia é enorme, tem até elevador. Ela mora no último andar. É tudo tão bonito, que, só de entrar na casa, a gente se sente importante.

“Cala a boca sua vadia”. A D. Sílvia não gosta quando a gente chora, mas eu tenho saudades da mamãe. Teve um dia que eu pedi pra falar com mamãe, mas a D. Sílvia estava tão cansada, coitada, que ficou furiosa e beliscou a minha língua com um alicate. Doeu muito. Doeu uma dor fina. Senti as batidas do meu coração na minha língua. Desmaiei. Sempre que a D. Sílvia belisca a minha língua com alicate a Vanísia, a moça que limpa a casa, faz um curativo com pimenta. Arde mais que o mundo, mas o curativo é pra cicatrizar os machucados. A Vanísia me amarra para eu não tirar o curativo e, assim, sarar mais rápido.

“Saí daqui sua piranha”. Adoro pizza. Um dia a Vanísia fez uma pizza com um cheirinho tão bom que eu não resisti e fui pedir um pedacinho bem pequenininho. A D. Sílvia não gosta quando a gente incomoda enquanto ela come. A hora da refeição é uma hora sagrada. A D. Sílvia ficou tão brava, mas tão brava, quando eu pedi o meu pedacinho, que me obrigou a comer o cocô do cachorro lá de casa. O cocô daquele cachorro fede muito, tem um cheiro de podre. Quanto mais ela metia aquele troço na minha boca, mais eu vomitava. A D. Sílvia ficou ainda mais brava por eu ter vomitado e resolveu apertar os meus dedinhos na porta. Ela apertou um por um dos meus dedos. Cada “track” que os meus dedinhos faziam nas dobradiças da porta doíam mais que o infinito. Pensei que iria morrer, mas, pelo menos, a fome passou.

Todo mundo lá de casa sabe que a D. Sílvia tem um gênio difícil. Ela trabalha muito e chega em casa cansada. Quando ela fica brava, ela arranca as minhas unhas, queima a minha pele com ferro quente, quebra os meus dentes com martelo, me enforca com um fio e me afoga no tanque, mas não é por mal, é o estresse.

Já fazia algum tempo que os vizinhos estavam reclamando dos meus gritos. A D. Sílvia sempre brigava comigo por causa disto. Quando a polícia invadiu o apartamento da D. Sílvia, pensei que fosse por causa da minha bagunça. Fiquei apavorada, sabia que teria mais tristeza na minha vida. Mas a moça da polícia ficou impressionada com os meus machucados e me deu um abraço bem gostoso, tão gostoso, que me deu saudades do abraço da mamãe.

 

 

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Kesi Medeiros (história de um colega)

Publicado por epifabiconia em Abril 25, 2008

O BANCO MAIS EXTREMO

 

Quando o assunto é cidade com muitas opções de lazer, Torres não é um bom exemplo. Pode até ser uma praia muito bonita, com suas falésias e suas trilhas, mas, à noite, o roteiro é único: caminhar pelo calçadão no centro.

Eu, minha irmã e minha prima Camila – Ah! Camila… Camila e seus cabelos… – repetíamos esse programa há uma semana. No centro, o grupinho de roqueiros bebia vinho ao lado da barraquinha de algodão doce; o carro vermelho mal estacionado continuava a tocar a “Dança da motinha”; e as mesmas meninas, com suas saias curtas, riam e rebolavam para quem passasse ao lado.

Entediado de desfilar, sugeri à Camila e à minha irmã que entrássemos em um mini-parquinho de diversões no fim da rua. Havia lá uma pista de carro-choque; uma centopéia que dava voltas em torno de uma flor gigante; um carrossel sem música; alguns jogos de azar e uma carrocinha de pipoca, cujo vendedor era também o responsável pelos ingressos dos brinquedos. Ao fundo, quase sem iluminação, estava o barco-viking, o brinquedo mais emocionante do parque e que parecia ser a nossa esperança de diversão naquela noite.

Minha irmã sentou-se no banco central do brinquedo, e Camila, do lado dela. Pensei em me acomodar junto a elas, o medo podia fazer com que Camila segurasse minha mão, mas como eu sabia que não passaria disso, optei pela adrenalina de sentar-me no banco mais extremo, que atinge maior altitude com a movimentação do barco.

Enquanto um rapaz fechava a trava de segurança dos bancos, chamei-as para me exibir: “Vocês são muito sem graça! Irado é ir bem alto, quase virando de cabeça para baixo”. Mal o sujeito fechou minha trava, o motor do barco começou a funcionar.

O movimento era lento, e o ângulo de inclinação do barco aumentava sem pressa. Eu ansiava por um balanço mais acentuado e admirava os cabelos loiros e compridos que cobriam as costas de Camila. Foi quando pus as mãos sobre o ferro que prendia minha barriga e ele se moveu para frente, deixando-me completamente solto. Senti o primeiro frio no estômago. Eu estava sem segurança em um brinquedo arriscado de um parque precário.

Tentava, com todas as minhas forças, puxar a trava em minha direção novamente, mas ela não se movia um milímetro sequer. Pensei em gritar para que o brinquedo fosse desligado, mas Camila pensaria que eu era um medroso, então me segurava o mais firme possível. O barulho do motor velho era a trilha sonora do meu temor. Forte e intenso.

Os cabelos de Camila já não escorriam sob suas costas, se balançavam cada vez mais rápidos e violentos. Eu implorava em silêncio para que ela não olhasse para trás e visse meu rosto apavorado, provavelmente vermelho de tanta força e suado de tanto medo. Ela também se segurava firme, mas eu era capaz de ouvir suas risadas de diversão.

Rir era o que restava. Eu ria um riso nervoso e sem som. Eu sentia meus pés chutarem o chão de tanto que tremiam. A velocidade do barco parecia aumentar com o meu desespero, e o frio na barriga se revezava com arrepios de pavor. Quando percebi que a força que eu fazia não era mais suficiente para me manter no banco, vi a morte sentar-se ao meu lado. Ela sorria para mim, assistindo meu desespero, com gozo. Aquela era minha hora. Comecei a rezar, lembrar da minha família, dos momentos da infância e de tudo mais. Eu estava vivendo um pesadelo e tudo o que eu queria era acordar.

A cada descida, eu me erguia cada vez mais longe do assento, o que evidenciava minha futura queda. “Menino morre ao cair de um brinquedo no parque de diversões”, previ a manchete no jornal do dia seguinte. Não! Esse não poderia ser meu fim, não era justo. Eu ainda tinha muito o que fazer em vida. Camila! Meus Deus! Eu ainda preciso dizer à ela o que sinto!

Fechei os olhos e comprimi mais ainda minhas mãos na trava. Segundos depois, quando os abri, não acreditei no que via. Os cabelos, agora embaraçados, de Camila diminuíam seus movimentos. O som do motor já não era tão agudo. O brinquedo estava parando. Inacreditável! Eu estou vivo! Acomodado no banco do barco, que quase não se movia, olhei minhas mãos vermelhas e limpei o suor do rosto com a camiseta – refletindo que aquela havia sido a maior emoção das minhas férias, ou melhor, da minha vida.

Mas, ao voltar para casa, Camila me surpreendeu. Ela não disse que também gostava de mim, quando contei a ela o que sentia. Ela também não me deu o beijo que pedi. Mas, ela me deixou pentear seus cabelos longos e loiros. O que me proporcionou uma emoção capaz de superar a intensidade do que senti no brinquedo. Essa, sim, havia sido a maior emoção das minhas férias, ou melhor, da minha vida.

 

 

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Gabriel Schirrmann (história de um colega)

Publicado por epifabiconia em Abril 25, 2008

EDUARDO E MÔNICA

 

            Eu era tão garoto, e ela, tão mulher. Eu, um jovem pré-vestibulando freqüentador de festinhas universitárias, e ela por volta dos 30 anos, empresária. Mundos tão distantes e que nunca teriam a chance de se encontrar, se não fosse pelas duas horas de viagem entre São Paulo a Porto Alegre. Ela, vestida com roupas caras e sérias, estava voltando de uma importante reunião de negócios; e eu, sentado ao seu lado, de bermuda, tênis e camiseta, voltando de uma visita a casa de minha mãe.

            Durante a viagem, a distância entre as idades diminuía rapidamente. Ela, ao falar comigo, se sentia tão menina; e eu, com ela, tão homem. Falamos de tudo, Jorge Bem, pôr-do-sol no Guaíba, Rua Augusta, Cidade Baixa. E, quando eu tentara jogar meu papo adolescente que nunca falhava com as meninas do cursinho, o capitão de nosso vôo anunciou a aterrissagem. Fiquei inconformado. Tudo passara tão rápido, tudo tão intenso. Minha companheira de vôo parecia já uma antiga paixão.

            Então, já no saguão do aeroporto, era hora de tudo acabar: homem voltar a ser garoto, e menina voltar a ser mulher. Caminhamos juntos até onde os caminhos coincidiam, nos demos três cordiais beijinhos, e cada um seguiu seu rumo. Pensei em tudo que havíamos conversado e me lembrei que, apesar de saber que ela havia viajado mundo tudo, namorado com dançarino de axé e que sua comida predileta era lasagna, não sabia o seu nome. Mas então aconteceu: foram poucos minutos sem ela e eu já não aquentava mais. Virei-me e ainda conseguia vê-la sumindo no meio da multidão. Agarrei forte a mochila e sai correndo atrás dela. Depois de desviar de malas, pessoas, baldes de limpeza, minha mão finalmente conseguiu tocar o seu ombro. Ela se virou assustada, mas no fundo sabia que era eu a lhe chamar a atenção “Um nome, você tem um nome não é?” perguntei, com certo tom de timidez.  Ela, sorridente, respondeu – Mônica, Mônica Rosato. E já respondendo, deu as costas e sumiu.

            Chegando em casa, mal cumprimentei meu pai e já fui direito para frente do computador. Orkut, procura, “Mônica Rosato”. E, na tela, dividindo espaço com outras seis ou sete mulheres, estava a foto dela, num elegante vestido preto e tão dona de si. Cliquei. Era mesmo ela, não quis deixar recado com medo de parecer juvenilmente afobado. Esperei uma semana e escrevi: “Oi Mônica, lembra de mim? Do vôo de São Paulo. Manda notícias beijo”. E, como mágica, no outro dia em minha página de recados, a resposta: “Então teu nome é Eduardo, claro que lembro, pode deixar, uma hora dessas combinamos algo, beijos”.

            Os meses se passaram. Conheci outras garotas e deixei Mônica guardada em algum lugar no tempo, por medo ou por preguiça, não sei. Sem e-mails, telefonemas, recados no orkut, nada, nada dela. Mas o mundo insistia em nós.

            Domingo, como de costume vou ao parque com meus amigos: chimarrão, risadas, tudo normal para um fim de tarde na redenção. Fiquei sentado enquanto meus olhos passeavam pelo parque e, de longe, vejo uma linda loira em roupas esportivas que contornam seu corpo desenhado e suado. Sua silhueta me é familiar. Ergo-me, vou atrás, chamo baixinho com medo de errar. “Mônica?”.  Ela se vira, me olha nos olhos, surpresa. Trocamos algumas cordialidades, e a deixo ir. Mas dessa vez seria diferente.

            Na mesma noite, ligo para ela, conversamos, e ganho minha chance: quinta feira, um chope. Chego de ônibus com o dinheiro contado no bolso, e ela, de carro importado. Bebemos o suficiente para virem as risadas. Assim ficamos por horas, horas demais até,

Quando vamos pagar a conta, percebo que já passara a hora do último ônibus. Aproveito a situação e falo para Mônica: “Não tem mais ônibus. Tem um sofá no teu apartamento?”. Ela me olha assustada e assustado fico eu quando ela responde: “Claro que tem”.

            Chego em seu apartamento, ainda sobre o efeito do álcool. Ficamos horas sentados no sofá vendo fotos e contando histórias. Quando começo a trocar a euforia pelo sono, ela nota e diz que vai arrumar minha cama. Suas atitudes fazem com que eu me sinta em uma posição quase de mãe e filho, mas não era isso que queria, a vontade de beijá-la tomara conta do meu íntimo.

            Ela me chama de dentro do quarto. Sigo sua voz e acabo dentro de um cômodo muito aconchegante, luz baixa, temperatura agradável e uma linda mulher de camisola mostrando minha cama: uma espaçosa cama de casal onde eu, já decepcionado, tentava me conformar em dormir sozinho. Mas vendo essa cena pensei: “Ela já é uma mulher feita, não me chamaria para um chope nem aceitaria que eu dormisse em sua casa se também não estivesse interessada”. Quando tomo coragem paro de pensar, estufo meu peito e, enquanto ela fala alguma coisa como onde ficava o banheiro e que horas teríamos que acordar, a pego pela cintura e lhe roubo um beijo forte. Me impressiono, pois ela me beija ainda mais forte.

            Como se fosse natural, caímos por sobre a cama. Minha cama agora era nossa. Puxo sua camisola e vou descobrindo cada centímetro da sua pele bronzeada e, em seus seios redondos e rígidos, me perco por completo. Estava louco! Queria agarrá-la tão forte a ponto de nos tornarmos um só. Por horas rolamos nus pela cama, e nus também dormimos.

            O dia amanheceu e eu ainda tinha Mônica em meus braços. Levantei-me, e dava para sentir no quarto a atmosfera de satisfação. Preparei o café, e ela, vestida com minha camiseta, sentou-se ao meu lado na mesa. Como se tudo fosse muito natural, nos beijamos e nos despedimos.

Fui para a aula, e ela, para o trabalho. Voltamos para nossas vidas tão diferentes uma da outra. Ela viaja muito, eu continuo na universidade e indo à Redenção aos domingos. Às vezes ela me liga de longe. Os meus olhos sempre a procuram pelo parque.

 

 

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Ariel Fagundes (história de um colega)

Publicado por epifabiconia em Abril 25, 2008

VÉSPERA DE FINADOS

 

É um lugar absolutamente repulsivo. Localizado na avenida Farrapos, o bar do meu pai possui um público fiel formado por rameiras idosas e baratas, travestis musculosos e drogados, bêbados solitários e desdentados. Ah, e um que outro funcionário de bordel que precisa de alguns goles para sorrir ao encarar os olhos dos empresários que traem suas esposas nas curvas das prostitutas de luxo. As paredes do bar são cobertas por um encardido gosmento, resultado de anos de exposição a óleo de fritura, à fumaça de cigarro e ao suor insalubre que exala dos corpos da distinta clientela. Já perdi a conta das horas que a mãe perdeu tentando tirar aquele encardido. Mas, como que por um feitiço maligno, não há nenhum produto que seja capaz de alvejar o gesso daquelas paredes.

            Eu nunca vou esquecer, aconteceu numa quinta-feira, dia 1º de novembro, véspera de Finados. Nessa data, minha irmã caçula estava comemorando o seu primeiro aniversário. Levando em consideração que nosso apartamento era pequeno demais para acomodar todos meus tios e primos, o pai decidiu fazer a festa no bar. Sim, em uma das piores partes do centro porto-alegrense, com o sexo ilegal e as drogas permeando o local, e com as fétidas paredes, que deixaram de ser brancas há muito tempo, emoldurando a cena. Porra, é claro que eu fui contra! O primeiro aniversário da minha irmã ia ser comemorado nesse ambiente horrível. Isso não é um bom jeito de se começar a vida!

            Como, em vinte e tantos anos de casamento, a mãe nunca questionou uma decisão tomada pelo pai, por mais estúpida que fosse, não ia ser agora que isso ia mudar. Restou a mim, então, reclamar. Tentei explicar de todas as formas que um bar na Farrapos não é lugar adequado para se fazer festa com crianças (como se fosse algo muito difícil de ser entendido), mas não adiantou. O problema é que meu pai é tão teimoso que a minha insistência só contribuiu para que ele se tornasse cada vez mais inflexível. Ele disse que já tinha ligado pra todo mundo e que estava tudo certo, o aniversário ia ser lá e isso não estava mais em discussão. Ponto.

Mas, enfim, tudo foi feito como ele quis e, às oito horas da noite, minha família já estava reunida no bar. Alguns tios que chegaram mais cedo iam acumulando garrafas vazias de cerveja em cima das mesas de plástico. As gargalhadas se tornavam cada vez mais ruidosas e as crianças se divertiam correndo pelo bar. Faltava apenas um tio chegar para que o pai baixasse a cortina de ferro da porta de entrada, e a festa começasse de fato. Nesse momento, surgiu um jovem de pele clara, mal cheiroso e mal vestido. Para nossa surpresa, ele entrou correndo bar adentro e se encolheu atrás do balcão. Estava apavorado. Seu corpo inteiro tremia, e o suor jorrava compulsivamente de sua pele, inundando o piso de madeira. Ao ver aquilo, ninguém – muito menos eu – entendeu nada.

De imediato, meu pai e meus tios se puseram a gritar com o pivete. Primeiro ameaçaram chamar a polícia, depois ameaçaram expulsá-lo na base da porrada mesmo, mas o guri não moveu um centímetro. Parecia não estar escutando uma palavra do que era dito. Essa situação já estava me deixado bem assustada, mas então, antes que qualquer dos meus tios embriagados cumprisse as ameaças, chegaram dois homens armados com revólveres. Eu disse que não era uma boa idéia! Suas peles eram negras como suas armas, e seus olhos, vermelhos e arregalados. Pareciam dobermanns raivosos farejando sua presa.

“Cadê aquele filho da puta?”, um deles gritou. Silêncio mortal no bar. Puts, eu fiquei muda, estática. Nem se quisesse ia conseguir dizer onde o guri estava. Os mesmos irmãos do pai que estavam tão corajosos 30 segundos atrás também não conseguiram emitir o menor som diante daquilo. “Eu não vou perguntar de novo, caralho!” Então minha priminha de dez anos, chorando mais do que eu tinha visto qualquer outra criança fazer, apontou seu pequeno dedo indicador para a direção do balcão. Os homens agarraram o jovem maltrapilho e o atiraram para o centro do bar num só golpe. Porra, eu avisei que não era uma boa idéia! O guri começou a chorar e a soluçar tanto que era impossível entender o que ele dizia, mas, devido à situação, era óbvio que estava implorando por misericórdia. Os dois homens apontaram suas armas para o guri, que a essa altura estava completamente encharcado de suor, lágrimas e urina, e as engatilharam.

            Enquanto isso, todos meus tios e primos, meu pai, minha mãe e, claro, eu estávamos em estado de choque. Ninguém dava um pio. Até mesmo as crianças, que não pararam de chorar desde que tudo havia começado, ficaram quietas. Quando todo mundo pensou que ia ver o cérebro do pivete se espalhar pelo bar inteiro, o estouro de um tiro a queima roupa deu lugar a dois baques surdos. O guri havia apenas recebido dois chutes, um na cara e outro na barriga. Talvez “apenas” não seja um termo preciso. Com os chutes, ele perdeu os dentes que ainda tinha e ficou cuspindo muito sangue. Bom, mas pelo menos não morreu, né? Após desferir os golpes, os dois homens guardaram suas armas e foram embora como se aquilo tudo tivesse sido apenas um contratempo que os atrasou em alguns minutos.

            A platéia ficou boquiaberta com o espetáculo e sinceramente aliviada. Ninguém imaginou que o pivete ia sair vivo dali. Após o choque, a primeira atitude tomada foi chamar uma ambulância pra levar o guri embora. A segunda foi se dedicar a tecer as mais mirabolantes hipóteses sobre o ocorrido. Acerto de quadrilhas rivais, cobrança de dívidas de crack, etc etc etc… Felizmente, o socorro chegou rápido, e o jovem maltrapilho, desacordado – mas vivo -, sumiu de nossa vista. O tio que meu pai estava esperando acabou nem vindo, e a trágica festa foi encerrada antes mesmo de começar. Bom, nem preciso dizer que todos os aniversários seguintes foram comemorados lá em casa. Todo mundo meio apertado, mas feliz.   

 

 

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Felipe Lopes (história de um colega)

Publicado por epifabiconia em Abril 25, 2008

QUINTA-FEIRA DE CINZAS

 

Amanhecia com um sol tímido escondido atrás das nuvens. Os paralelepípedos da rua ainda estavam cobertos de confetes e serpentina próximo à entrada do clube Corinthians. Na calçada, pedaços de garrafas quebradas se juntavam a alguns bêbados atirados na sarjeta.

Era quarta-feira de cinzas, mas pra mim o carnaval ainda não havia terminado. Não fui pro Rio, meu bloco não ganhou o desfile, não tive nenhuma paixão carnavalesca, nem ao menos uma boa mentira pra contar. Fora mais um feriado entediante em Santa Cruz do Sul, assim como todos os últimos.

Mas afinal, era carnaval! Disposto a mudar meu destino de folião frustrado, ao meio-dia, retomei os trabalhos. Antes que os efeitos da ressaca de três dias de bebedeira começassem a recair sobre mim, já estava acompanhado de alguns sobreviventes da maratona de festas e de algumas caixas de cerveja, cheias de garrafas geladas que suplicavam por esvaziar-se antes que ficassem quentes. Quando os quadrados do piso da casa vó adquiriram formas arredondas, notei que o álcool começara a surtir efeito e, quase que concomitantemente ao início de minha embriaguez, surge ao portão da velha casa amarela meu primo Guilherme, com um sorriso tão convidativo quanto o verde brilhante da garrafa de Absinto que segurava em suas mãos. Feito o carreto! Não pude esconder que minha felicidade era maior ao admirar a “fada verde”, do que ao contemplar o nariz batatudo de meu primo, que já estava mais do que enjoado de ver.

E assim, sem me dar conta, aquela tarde passou num piscar de olhos, as paredes amarelas já haviam ficado marrom com o anoitecer, e as janelas da casa surpreendentemente multiplicavam-se a cada olhar. Entre risadas, histórias incríveis, alguns copos quebrados e muitas idas ao banheiro, nos lembramos de aquela noite ainda nos reservava a festa final do carnaval. Assim, quando a ultima garrafa de cerveja (agora quente, mas não por isso intragável) chegou ao fim, saímos de casa rumo ao clube.

A grande reta da rua central me parecia cheia de sinuosas curvas, as luzes alaranjadas dos postes atingiam meus olhos com tamanha força que me faziam caminhar de cabeça baixa, olhando para meus próprios pés, que a cada passo tomavam uma nova direção. Senti uma forte sensação de enjôo e, ao dar mais um gole no gargalo da suntuosa garrafa, vomitei no meio da rua litros de “cerveja esverdeada”. Durante o trajeto, notei que meus companheiros boicotavam qualquer tipo de conversa comigo. Eu ria sozinho da fala enrolada dos guris, sem me dar conta de que eles ao menos conseguiam pronunciar alguma palavra.

Chegamos ao clube lá pelas três horas da manhã e, então, recebemos a triste notícia do segurança que cuidava a porta: “ninguém mais entra na casa!”. “Mas como assim ninguém entra?”, pensei. Minha última noite de carnaval era a esperança de salvar mais um feriado perdido, de poder voltar feliz pra casa. Tinha a convicção de que aquela festa me reservaria algo de especial, mas lá, dentro do clube Corinthians, não do lado de fora! E não seria aquele gorila, filho da puta, de dois metros de altura e três de largura que iria botar todos os meus planos por água abaixo! Filho da puta! Era só assim que eu pensava no negão três por quatro. E assim o xinguei quando ele deu o assunto por encerrado: “Tu é um filho da puta mesmo!” e repeti por várias vezes e, em cada uma delas, acrescentava mais uma gama de palavrões.

Triste era pouco, estava arrasado, deprimido, frustrado! Quase que chorando, caminhei à procura do caminho de casa. Mal notei que estava sozinho. Realmente minha companhia, naquele momento, já não era das mais agradáveis. Nos fundos do clube, encontrei, nos degraus do antigo estacionamento, um lugar confortável para descansar e finalmente tomar o derradeiro gole do Absinto maldito!

Uma voz firme e grave me acordou: “Agora a gente vai ver quem é o filho da puta!”. Era o gorila engravatado que estava em minha frente. O troglodita de careca reluzente exibia nas mãos um cacetete preto e, sem hesitar, acertou-me na altura do estômago. Nessa hora, de dor, urrei: “Filho da puta!”. E a cria da santíssima mãe me batia com cada vez mais força, ora nos braços, na cabeça, nas pernas, na barriga, entre as pernas e a barriga, por todo o corpo.

Acordei ainda na escada, completamente dolorido e ainda embriagado. Mas a maior dor foi ver o dia daquela manhã cinzenta de quinta-feira nascendo. Perdi minha quarta-feira de cinzas, e com ela as esperanças de salvar meu carnaval.

Ao chegar em casa, notei que não havia ficado nenhuma marca das agressões do segurança. Foi a gota d’água. Todas minhas tentativas fracassaram. Não fui pro Rio, meu bloco não ganhou o desfile, não tive nenhuma paixão carnavalesca, e a única boa história que tinha pra contar parecia mais uma grande mentira.

 

 

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