Epifabiconia

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André Feijó (texto de definição)

Publicado por epifabiconia em Maio 9, 2008

COISA DE GAÚCHO

 

            Não sou dessas terras. Nasci num aviãozinho montado no meio do nada chamado Brasília, mas de brasiliense não tenho nada. Vim pra cá ainda pequeno e me considero gaúcho de alma e de coração. E como todo bom gaúcho, sou um exímio e freqüente utilizador e incentivador daquela que é a expressão mais conhecida aqui nos pampas: o “bah!”

            Mas… exatamente, o que é o “bah”? Mas expressão de quê? Surpresa, indignação, alegria? Pergunte a qualquer gaúcho, todo mundo conhece, mas ele responde: “Bah, não sei”. Irônico, não? Essas três letrinhas são usadas em diversas ocasiões, ilustrando os mais diversos sentimentos, tais como raiva – “mas bah! Como tu pôde fazer isso?” – surpresa – “baaah, de onde vocês vieram?” – alegria – “bah, tu nem sabe, meu filho nasceu!” – até mesmo indiferença – “bah… não tô nem aí pra isso” – entre outras muitas situações.

            Nas aulas de português, podemos lembrar de classificar o “bah” como uma interjeição. Alguns historiadores podem dizer que a expressão veio de uma supressão da palavra “barbaridade”, usada pelos gaudérios no passado para exaltar alguma notícia ou fato ocorrido. Nisso, eu até concordo. Porém, a linguagem evoluiu, e esse “vício” de linguagem do gaúcho com certeza também seguiu esse ritmo.

            Hoje em dia, não podemos dizer que é somente uma expressão, um interjeição. É um símbolo do Estado, uma espécie de código secreto, uma saudação, como os maçons possuem. Ela serve justamente para identificar o gaúcho. Não me surpreenderia saber de um bebê gaúcho cuja primeira palavra dita fosse o “bah”. Seria normal, nada mais do que o esperado. O gaúcho já nasce com o “bah” incorporado, deve ser até genético. É um tipo de coringa na fala do povo daqui que, mesmo não sabendo definir com normas e regras o que é, sabe exatamente o que está sendo dito. Coisa de gaúcho.

 

 

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Renata Fetzner (classificação)

Publicado por epifabiconia em Abril 25, 2008

 

É SÓ OLHAR PARA VER

 

Já dizia a canção “é só olhar pra ver que eu sou do sul”. O resto do Brasil, por falta de conhecimento ou por preconceito, costuma ter uma idéia estereotipada dos habitantes do Rio Grande do Sul. Chegam a pensar que os aproximados dez milhões e seiscentos mil habitantes do Estado mais ao sul do nosso país andam trajados tipicamente, galopando seus cavalos crioulos pelas ruas da cidade, com a cuia do chimarrão em mãos e almoçando churrasco todos os dias. Nós, gaúchos, os protagonistas dessa história, sabemos que os quatro cantos da nossa terra longínqua e de tantas peculiaridades abriga gaúchos de diversas formas, cores e tamanhos.

O gaúcho Rodrigo Cambará é o gaúcho típico, o estereótipo do Rio Grande. Anda pilchado diariamente, não dispensa comida gaúcha em todas refeições, não desgruda do mate e tem aquele sotaque forte e pomposo que é forçadamente imitado por brasileiros como os do “Casseta e Planeta”. Ele trata os hábitos dos homens modernos como coisas de maricas, tchê! Com esse tipo de gaúcho, tradição é tradição, 365 dias por ano. Ele expõe seu amor pelos pampas em qualquer momento do dia, seja em trovas, versos, canções, vestuário ou culinária.

Outro tipo, igualmente comum, são os gaúchos da ilha. Na maioria das vezes, jovens que, nos finais de semana, feriados e férias, pegam o carro e as pranchas de surf e rumam para o litoral catarinense. São encantados pelas praias da ilha e do restante do Estado de Santa Catarina. Ferrugem, Floripa e Praia do Rosa são como sua segunda casa, onde encontram a beleza e o clima de natureza que dizem não encontrar por aqui.

Na capital do Estado, encontramos o Gaúcho da Bela Vista e do colégio Anchieta. Integrante da tal “Classe A”, assim chamada pelas estatísticas, mora na Bela Vista, Três Figueiras ou Moinhos de Vento. Seu filho estuda no Anchieta ou no Farroupilha. No domingo, jamais freqüenta a Redenção ou o Gasômetro (ambos pontos turísticos e muito freqüentados). Contenta-se com um cubículo de grama, a Praça da Encol, cercado por alguns dos edifícios mais chiques da capital gaúcha. Nas férias, ou torna-se gaúcho da ilha, ou migra para a praia internacional mais próxima: Punta Del Este, onde participa de diversos coquetéis e estampa colunas sociais.

            No verão, o gaúcho “agüento tudo por uma praia” dá o ar de sua graça. É aquele que, quando chegam as festas de final de ano, enche o carro e se muda para a praia. Mas não Santa Catarina, muito menos Punta Del Este. E sim, as praias gaúchas mesmo, geralmente, as do litoral norte. São três meses curtindo as praias cinzentas do litoral gaúcho, contentando-se com as caminhadas pelo centro de Capão da Canoa, atravessando a ponte de Tramandaí-Imbé, telefonando de orelhões em formato de abelhas no Balneário Pinhal, vendo shows na concha acústica de Cidreira. Três meses vestindo chinelo, bermuda, boné de brinde, com marca do óculos escuro e pele vermelha, comprando crepe, indo na sorveteria todo santo dia e tomando chimarrão na beira da praia. O pior: agüenta a péssima infra-estrutura das praias, os altos preços dos produtos, o mar gelado e com cor de chocolate, os argentinos roubando suas mulheres, o famoso vento nordestão na beira da praia, os inundamentos das ruas depois de um dia de chuva, entre tantas outras coisas pelas quais só esse grupo de gaúchos passa. Mas, apesar de todos os percalços do veraneio, continuam amando sua praia, e um ano depois, estarão lá novamente.

            Ao chegar o mês de setembro, mais precisamente a semana do dia 20, quando se comemora a Revolução Farroupilha, centenas de gaúchos Rodrigo Cambará aparecem, de súbito. Podem ser chamados de “gaúchos Maria-vai-com-as-outras”. De uma hora para outra, o Estado inteiro passa a exaltar seu amor pela terra, por suas origens, passa a seguir o tradicionalismo. Vão às lojas e compram vestimentas típicas, passam a ouvir músicas tradicionalistas, levam chimarrão para o trabalho, forçam o sotaque. Tudo vira festa e todos louvam seu pago e sua querência amada.

            Pelo fato de o Brasil ser um país de diversas colonizações, o Rio Grande do Sul possui gaúchos meio cá, meio lá. Os meio lá na Alemanha cultivam os costumes germânicos. Vivem, geralmente, no interior do Estado, e até hoje preservam as tradicionais festas alemães, chamadas de kerbs, regadas a muita comida (cuca, lingüiça, pães com kas-schmier) e as famosas e engraçadinhas bandinhas alemães. Mesclam três sotaques: o gaudério, o interiorano e o alemão (que ainda é muito falado nas casas de origem germânica). O outro gaúcho meio cá, meio lá, vem da Itália. Praticamente igual ao alemão, mudam-se os costumes, as músicas e as comidas, que são substituídas por vinhos, massas, polentas e uvas. Em muitas cidades, nos sentimos na própria Alemanha ou Itália, mas sempre ouvimos ou vemos algo que nos remete ao amor pelo Rio Grande do Sul.

Se você se identificou com mais de um tipo de gaúcho, não estranhe. No fundo, o verdadeiro povo do Rio Grande do Sul é uma soma de alguns desses grupos e de outros tantos. Entre semelhanças e diferenças, somos constantemente notados Brasil afora, afinal “É só olhar pra ver que eu sou do sul”.

 

 

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Natália Michelena (classificação)

Publicado por epifabiconia em Abril 25, 2008

CELULARES OU SERES HUMANOS?

 

Desde o surgimento da telefonia móvel, o celular sofreu transformações significativas. A denominação das duas primeiras gerações do aparelho inspirou-se, basicamente, em seu tamanho, sendo que mais atual se deu não só pelo formato, mas também pelas muitas aplicações tecnológicas existentes.

            Os pioneiros foram os chamados “Esconda-me se for capaz”, vulgos “Tijolões”. Eram, de fato, enormes e bem básicos, com funções comuns a um telefone fixo normal. Ocupavam um espaço considerável nas bolsas e mochilas das mulheres. Colocá-los no bolso, então, revelava-se uma missão impossível! Todo esse tamanho avantajado podia ser percebido, por exemplo, fosse atendê-lo: parecia que o sujeito estava tirando uma arma de dentro da pasta, principalmente no momento de levantar a famosa antena flexível, a qual, muitas vezes, saía inteira do aparelho, pronta para o ataque. Ou seja, até mesmo o simples ato de atender o celular vinha acompanhado de grandes emoções.

            Após a presença “de peso” no mercado dos telefones móveis, fora iniciada a fase dos celulares pequenos, mais práticos e com inovações como toques polifônicos e jogos. Seu tamanho correspondia praticamente à metade do primeiro modelo. Esta característica, por sinal, gerou certas complicações, visto que os usuários estavam acostumados com a exuberância e a sobre-saliência do “Tijolão”. Agora, caso o celular tocasse, era necessário tatear diversos outros itens na pasta, com tamanhos mais ou menos iguais ao do aparelho, para conseguir enfim atendê-lo. Por isso, a novidade em questão passou a ter o nome “Encontre-me se você for capaz”.          

Chegando a terceira categoria na linha de sucessão dos celulares, eis que surgem os modelos atuais – pequenos ou grandes – que apresentam opções diversas de design, possuem muitas funções (como tirar fotos, ouvir rádio e filmar) e alguns apresentam, inclusive, a parte frontal móvel. São eles os aparelhos “Utilize-me se você for capaz”. Todas essas aplicações reunidas em um único celular acabam provocando mais confusões, especialmente se os consumidores forem pessoas de idade mais avançada, indiferentes à maioria das inovações do mundo contemporâneo. Conseqüentemente, escutar a frase: “Como se mexe nisso?” virou rotina nos dias de hoje.

            Sendo assim, podemos dizer que o aparelho celular iniciou seu ciclo de vida como uma “pedra” no caminho dos usuários, seguiu tornando-se prático e, atualmente, esbanja diferentes e inúmeras funções. No futuro, considerando os visíveis esforços dos homens em fazer com que as máquinas se assemelhem cada vez mais aos seres humanos, talvez o próximo modelo se chame “Converse comigo se você for capaz”.

 

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Letícia Becker (classificação)

Publicado por epifabiconia em Abril 25, 2008

NOSSOS MESTRES

 

O aprendizado, tanto no meio escolar, quanto no meio acadêmico, depende de duas partes: do professor e do aluno. Os esforços de ambos são necessários para que se possa desenvolver esse aprendizado da melhor maneira possível. Do aluno, são esperados dedicação, disciplina, interesse e muito estudo. E do professor? Ele também tem uma grande responsabilidade sobre o aprendizado. Cada um tem seu jeito, mas a maneira como dá aula, como aborda o conteúdo e como se relaciona com os alunos influenciam profundamente no aprendizado. Alguns professores têm didáticas mais eficientes, outros não, e é interessante compará-las para tentarmos melhorar o ensino.

Há diversos tipos de professores. Um dos mais populares é o professor Show-Man. Como o próprio nome já diz, é um show em pessoa. Suas aulas são muito dinâmicas, repletas de encenações, músicas, versos. O aluno acaba se sentindo em uma platéia de uma peça teatral. Todas as artimanhas são utilizadas para prender a atenção do aluno e para ajudá-lo a absorver a matéria. São geralmente aqueles professores que a turma adora e que acabam se tornando muito conhecidos. Seus métodos, em geral, são eficientes, e o professor conquista o respeito da turma.

Já o Professor Não-Fede-Nem-Cheira, ao contrário do Show-Man, não consegue conquistar o respeito dos alunos. Ele é um professor meio tímido, que entra na sala em meio a muitas conversas, dá aula em meio a muitas conversas, e sai em meio a muitas conversas. Enfim, ninguém dá bola para sua presença e para a matéria que leciona. Muitas vezes é aquele professor novato, sem experiência. Por não saber conduzir a turma, mesmo tendo um ótimo conteúdo para passar, o professor dificulta o aprendizado daqueles alunos interessados, que não conseguem prestar atenção em função da bagunça em que se encontra a sala. Geralmente facilita a aprovação de todos, com meios de avaliação muito fáceis.

O Professor Leão-Lobo é quase sempre do gênero feminino. Esse estilo de professor é caracterizado por adorar uma fofoca. Se puder, passa a aula toda contando sobre as brigas com a vizinha, os relacionamentos amorosos dos filhos, ou o último capítulo da novela. Assim como o Professor Não-Fede-Nem-Cheira, os alunos acabam não aprendendo nada em suas aulas. O Professor Leão-Lobo é parecido com o Professor Volta-ao-Mundo, que o que menos gosta de fazer é dar aula. Seu maior interesse é conversar com os alunos, mas não sobre fofocas, e sim sobre as suas viagens pelos Lagos Andinos, pelas praias tailandesas ou pelas savanas africanas.

O Professor McDonald’s ou Amo-Muito-Tudo-Isso é aquele que basta assistir uma aula para se dizer: “Esse cara ama o que faz”. Ele dá aula com prazer, está sempre aberto a intervenções dos alunos, interessa-se pelo andamento do aprendizado e, geralmente, tem um ótimo relacionamento com eles. Esse professor adquire o respeito dos alunos naturalmente, sem exigi-lo. Ele pode até ter um pouco de Professor Leão-Lobo ou Volta-ao-Mundo, mas sabe a hora de parar e, geralmente, o assunto tratado nas conversas paralelas tem relação com a matéria.

Enfim, esses são apenas alguns exemplos, pois há muitos outros tipos de professores. O fato é que o estilo do professor influencia muito a aprendizagem dos alunos. A maneira como conduzem a aula e como se relacionam com os alunos, muitas vezes, é responsável pelo êxito do ensino .

 

 

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Giselle Querotti (comparação)

Publicado por epifabiconia em Abril 11, 2008

           

TODOS FARINHA DO MESMO SACO

 

Todo início de semestre é a mesma coisa. A Fabico se movimenta. Bixos para um lado, veteranos para o outro. Os primeiros, tímidos, com as caras pintadas, encolhidos em seus cantos. Os últimos, exultantes, entoando hinos e dando ares de donos do pedaço com suas mais poderosas armas: os implacáveis potes de tinta. Aparentemente, nada em comum além do fato de estarem na mesma faculdade.

            Os primeiros dias de aula são os mais aguardados pelos calouros. A vontade de aprender se soma à expectativa de conhecer outras pessoas, fazer novas amizades, compartilhar experiências. Será que vão gostar de mim? Será que escolhi a faculdade certa? Como serão meus colegas e professores? Isso sem falar do frio na barriga que dá esperar pelo famoso trote. Será que é tão terrível como falam? São muitas as perguntas a serem respondidas logo no início da vida acadêmica. E os bixos chegam acanhados, na maior expectativa, receando e, ao mesmo tempo, desejando o que estar por vir.

            Os veteranos, por outro lado, já experimentaram essas sensações. Conheceram na pele o que é ser bixo, passaram por todas as provações impostas no trote, e estão ansiosos por “descontar” nos seus bixos tudo o que lhes foi aplicado. Tentam demonstrar que mandam, fazendo com que os calouros cantem, dancem e realizem todo tipo de prova. E ai de quem reclamar! Porque bixo rebelde é logo castigado. E, por isso, os veteranos também ficam na maior expectativa, ansiando pelos momentos de diversão às custas dos pobres coitados.

            Mas os dias de trote são só o início da convivência universitária. Eles logo passam e, depois de terem a permissão de andarem com as caras limpas, os bixos ficam muito parecidos com seus veteranos. Muitos adiantam cadeiras, outros precisam atrasá-las, e o que sobra no final é uma miscelânea em cada turma, com alunos de diferentes semestres, mas com muita coisa em comum, como a paixão pela comunicação, a vontade de mudar a Universidade Pública e a disposição em participar de passeatas e protestos organizados pelo diretório acadêmico.  Além disso, bixos e veteranos compartilham a insatisfação com as cadeiras teóricas no início do curso, mas, principalmente, a falta de consciência do quanto elas são importantes. A energia para festas e para as tardes de sinuca e muito truco no DACOM também são comuns às duas classes. No início do curso, igualmente, os estudantes criticam, de maneira ferrenha, as grandes redes de comunicação e as discussões em sala de aula, quase sempre baseadas em “achismos” e que terminam em reality shows e novelas brasileiras.

Ou seja, caras pintadas ou tinta na mão, no fundo são todos farinha do mesmo saco.  

              

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Demétrio Pereira (crônica)

Publicado por epifabiconia em Abril 11, 2008

ACREDITE SE QUISER

 

            - Bah, mãe, meu filho eu não vou batizar.

            Como assim? O guri, após muitos anos de criação “para o bem”, vem com esse tipo de afirmação dos diabos e condena o neto? O futuro celestial da família está comprometido. Não é fácil para integrantes de gerações ferrenhas na prática religiosa aceitarem idéias desapegadas como essa. De qualquer forma, tive que dizer à mãe. Filho meu não vai ser batizado. Não vou nem anunciar punições do “Papai do Céu” para traquinagens diversas. Aliás, nem do Papai do Céu vou falar. E isso, sob a perspectiva de muitos religiosos, pode significar a condenação da criança a uma conduta depravada, aleijada de certos valores morais que apenas a religião poderia prover. Para derrubar essa visão, entretanto, basta observarmos as atrocidades cometidas por pessoas ditas espiritualizadas ao lado do perfil solidário e politicamente correto de outras tantas ditas ateístas. Platão, n’A República, já discutia ética e o “bem” sem precisar acreditar em um deus inquisidor. Mas calma lá, que não quero entrar nesse mérito. Antes de defender um lado ou outro, vejo teístas e ateístas como farinha do mesmo saco.

 

            É, eu decretava a mim mesmo larga impopularidade ao pelear contra a criação religiosa, e agora cavo de vez meu buraco declarando guerra a quem estava simpatizando com a coisa. Mas a idéia é simples. Afirmar ou negar a existência daquilo que desconhecemos aponta para o mesmo erro. Parece puro debate ideológico, mas o perigo reside, justamente, no domínio nocivo que qualquer ideologia, enquanto incontestável, pode causar em um indivíduo e, assim, ser refletido no meio social. É assim que o embate entre cristãos e muçulmanos transforma concepções diferentes de mundo e existência em guerras que atravessam séculos, cada qual com sua justificativa, sempre um misto de política e espiritualidade. É assim que a Igreja Católica tentou – e continua tentando – frear a ciência e a divulgação do conhecimento científico, através de práticas completamente avessas aos serenos sermões do bondoso e conciliador menino de Belém. É assim que, em certos países, moças têm seus clitóris mutilados logo ao nascer, pois assim a religião local postula. Cabe reparar na naturalidade com que muitas religiões oprimem as mulheres, pois, em Estados onde política e espiritualidade estão conectados, nada mais fácil para o homem, detentor do poder, tornar comum e aceitável aquilo que apenas convém aos seus interesses – inclusive, nesse caso, o desrespeito e o tolhimento da dignidade da mulher.

 

            Ah, meu filho eu não batizo. Mas nem por isso guiaria alguém pro ateísmo. Pelo menos em nível individual, estão comprovados cientificamente os benefícios da fé. Fé em qualquer coisa. Fé n’O Segredo, que seja. Mesmo com a incerteza da existência real daquilo em que acreditamos – se tivéssemos certeza, não acreditaríamos, saberíamos – uma mentira agradável muitas vezes vem a calhar. A mim parece que, coletivamente, o ateu não representa tanto perigo quanto o fanático religioso. O ruim dele é se tornar um chato, rindo de longe de coisas que julga absurdas, mas caindo na mesma armadilha do extremismo ideológico. Se levar uma crença ao extremo culmina em guerras e demais violências, por outro lado, valorizar exacerbadamente uma descrença, no mínimo, estreita a visão do indivíduo e o impede de aproveitar o que as tantas doutrinas religiosas têm para oferecer. Ou seja, o mal do ateu não é tão visível, mas a intransigência, por si só, já é um mal.

 

            Ora, se não batizaria meu filho é porque, não tendo certeza das coisas do mundo e do além-mundo, seria violência comprometer a mente alheia e submetê-la a certezas incertas. Em temas como esse, cabe a cada pessoa, ao seu próprio tempo, encontrar o que lhe serve como verdade e reconhecê-la como verdade apenas para si, não para outros. Ao contrário do que posso ter feito parecer, não me incomodam os crentes nem os descrentes. Caio agradavelmente no chavão “se faz bem, que mal tem?”. Ainda assim, vejo com imenso desprezo a displicência com que se levam recém-nascidos para serem aceitos aqui e acolá como filhos deste ou daquele, sendo que a pobre criança mal tem noção da própria existência. É um desrespeito à individualidade e à própria liberdade de pensamento. Não pretendo apregoar o desapego a toda tradição, influência social, ritual ou costume. Ocorre que, neste caso específico, na discussão de um tema sobre o qual, de fato, nada se sabe, defendo que nada se afirme. Muito bom eu vou achar que meu filho não mate, não furte nem cobice a mulher do próximo (evita problemas, não é?), mas nada de azeite e sinal da cruz no bebê. Melhor estimulá-lo a pensar e fazer escolhas por si só, quando for capaz para tal. E muito bom eu vou achar que meu filho seja gremista. Ruim é se resolver se agremistar demais e sair brigando com colorado. Extremismo ideológico, que tristeza!

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Renata Spanhol (comparação)

Publicado por epifabiconia em Abril 7, 2008

COZINHANDO RECEITAS, ESCREVENDO PALAVRAS

 

   Escolher os melhores ingredientes, saber a hora certa de colocar cada coisa, cortar as partes que não estão boas, trabalhar bem para que tudo fique homogêneo, deixar descansar. Para crescer a massa e para melhorar o texto. Escrever e cozinhar podem parecer artes totalmente distintas, mas, ao preparar uma receita ou ao fazer um texto, encontramos um mesmo princípio: a junção de ingredientes e de idéias diferentes – muitas vezes inconciliáveis – que se transformam em algo completamente novo, quase como num passe de mágica, mexendo com as emoções de quem faz e de quem degusta essas misturas.  

  Quando escrevemos, colocamos tudo o que somos e estamos sentindo no papel. Para o texto dispensamos tempo, energia e dedicação, experimentando cada palavra, preparando letra por letra para chegar ao resultado final mais delicioso possível. Erasmo de Rotterdam disse que o gosto pela escrita cresce à medida que se escreve e, nos arredores da cozinha, não é diferente. A cada receita que se acerta, como em cada texto em que a expressão de nossas idéias se concretiza, a vontade de descobrir outros sabores e a ânsia por vencer novos obstáculos se intensifica. É como ter sucesso com aquela massa de bolo que nunca cresce uniforme ou com aquele assunto sobre o qual não conseguimos nos expressar com habilidade.

   Mesmo parecendo ser próximos, as diferenças entre culinaristas e literários também podem ser percebidas. O ato de mexer com as panelas pede a atenção constante de quem o executa. Um segundo de distração pode significar o fim de um prato. Os escritores permitem-se uma liberdade maior com sua arte, podendo ficar dias, até anos deixando seus escritos em banho-maria, retomando-os sem o menor prejuízo. Enquanto existem cozinheiros que só se sentem confortáveis criando na própria cozinha, com suas facas e seu fogão, há escritores que conseguem escrever em qualquer lugar, basta que tenham uma caneta e um pedaço de papel em mãos.

   A culinária e a escrita são apaixonantes. Apesar de uma ou outra diferença aparecer, é impossível não perceber o ponto central que as entrelaça. Quem já não ficou com os olhos cheios de lágrimas lendo uma passagem de um livro? Quem nunca voltou aos bons tempos da infância ao comer um doce que era preparado pela avó? Tudo o que cozinheiros e escritores transmitem através de suas mãos tornam as experiências, seja com panelas, seja com canetas, únicas e necessárias para que estes cheguem ao objetivo de suas atividades: a expressão de emoções.

 

 

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Juliana Oliveira (comparação)

Publicado por epifabiconia em Abril 7, 2008

AS AMÉLIAS, AS DE ATENAS, AS MODERNAS

 Muitas conquistas foram atingidas por nós, mulheres: o direito de voto, a inserção no mercado de trabalho, a maior aceitação da nossa sexualidade. Ficou para trás o tempo das “Amélias”, das quais o maior objetivo de vida era casar e ter filhos, que tinham como função as atividades domésticas. Ficou para trás o tempo das “Mulheres de Atenas”, de Chico Buarque, aquelas que “quando fustigadas não choram – se ajoelham, pedem, imploram”. Contudo, junto das conquistas, vieram as inseguranças, a artificialidade e os relacionamentos vazios. Como sempre, é mais fácil para nós julgarmos o estilo de vida e valores da época de nossos avós do que refletirmos sobre os nossos, distanciando-nos dos princípios sob os quais fomos educados.

 Quantas mulheres modernas se vêem escravas não mais dos casamentos, mas sim da busca incessável por beleza e reconhecimento? Quantas não conseguem se aceitar do jeito que são, gostar de si mesmas, envelhecer com sabedoria e tranqüilidade? Muitas, pateticamente, tentam parecer como se fossem 20, 30 anos mais jovens do que são. Estas, ao se olharem no espelho e repararem a primeira ruga que surge, entram em crise. Para impedir que as marcas do tempo apareçam, se submetem a processos cirúrgicos, ginástica, drenagem linfática, cremes milagrosos, pílulas de colágeno. Já as “Amélias”, envelheciam naturalmente, viravam aquelas avós queridas de cabelos brancos – algumas pintavam, não para esconder os anos, mas sim para se sentirem bonitas. Hoje vemos avós sem rugas, que não admitem suas idades e que não têm o orgulho de dizer “sou avó”.

 Antigamente, as mulheres casavam cedo e dedicavam-se completamente aos seus maridos e filhos, consolidavam uma família. Não estudavam ou trabalhavam, a dedicação era total às atividades domésticas. As mulheres modernas têm dois empregos, se divorciam, muitas nem chegam a casar. Contudo, grande parte – tanto das separadas quanto das solteiras convictas – desconhecem um relacionamento de verdade. Talvez esteja fora de moda, talvez estejamos vivendo a era da “vergonha do amor”, na qual demonstrar apego é coisa de gente fraca. Inventaram a expressão “a fila anda” – e parece que junto dela andam a cumplicidade, o respeito, a profundidade. Conquistamos o divórcio, mas perdemos o sentido real de união. Temos casas bonitas e lares despedaçados, bons empregos e relações vazias. Compramos mais e sentimos menos, cuidamos do nosso físico e esquecemos do psicológico. Gastamos em objetos supérfluos, consumimos antidepressivos, vamos ao psicanalista. Temos o direito de buscar a felicidade como e com quem bem entendermos, mas estamos felizes? Nosso estilo de vida competitivo e nossa tentativa de provar que somos autosuficientes estão fazendo com que fiquemos mais frustradas e não saibamos mais reconhecer nos outros a capacidade de crescimento, de aprendizado.

 Em suma, o estilo de vida das “Amélias” e das “Mulheres de Atenas” não cabem nos moldes da nossa sociedade atual, mas retomar alguns valores básicos aliando às conquistas da modernidade talvez seja crucial para que resgatemos o amor próprio, a aceitação e a felicidade

 

 

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Gerda Arns (crônica)

Publicado por epifabiconia em Abril 7, 2008

APESAR DE TERMOS FEITO TUDO, TUDO…

 

“Não quero lhe falar, meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos; quero contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo”:

Cá estou eu, menina tentando insistentemente crescer, amadurecer, ter um currículo invejável. Tanto esforço para provar pra dona Elis Regina que ela se engana quando diz que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Eu, assim como minhas colegas e amigas, estou trabalhando para que o mundo pare de nos enxergar como fábricas de bebês e donas-de-casa. Não acho que o sinal esteja fechado para nós, que eles tenham vencido. Que há perigo em cada esquina é verdade: desrespeito e violência em tentativas frustradas para com garotas que buscam conquistar o mercado de trabalho.

            Mas eis que, em um belo dia, ligo a TV e me deparo com a seguinte cena: o casal jovem chega à sua nova casa com um bebê recém-nascido no colo. O rapaz mostra a casa para amada que estava no hospital até então, ambos emocionados por começarem uma vida nova. Uma gracinha. Aí, veio a pérola:

            “E aqui, amorzinho, está o seu novo fogão, para você cozinhar as papinhas do nosso neném.”

            “Ah, aqui eu coloquei uma máquina de lavar roupa pra você não ter muito trabalho na hora de lavar roupa.”

            Não sei o que me chocou mais: o ator Lázaro Ramos comentando aquelas barbáries ou a atriz Débora Falabela tendo de interpretar uma emoção sonsa, como se tivesse dado a luz aos eletrodomésticos também..

            Como se não bastasse, o macho sai de casa, vai entupir seus amigos com charutos, enquanto a fêmea fica, tentando descobrir como trocar fraldas. Sozinha.

            Não. Sozinha não. A mãe dela chega e a ajuda. “Minha filha, lá onde eu estudei a gente não tinha só aulas de francês e etiqueta: aprendíamos também como ser esposas de homens grandiosos”, dizia ela, com uma voz mansa e meiga, enquanto varria a casa.

            Pausa. Náusea. Quer dizer então que todo o meu esforço para me tornar futuramente mais do que a “esposa de Fulano” estava indo por água abaixo? Não é isso que a sociedade espera de nós, afinal! O fogo dos sutiãs queimados foi mais um fogão gigante em que se fez um grande prato de risoto para os maridos, e não um sinal de protesto?! O anticoncepcional não foi um símbolo de que as mulheres poderiam controlar a gravidez, mas de que os maridos não iam ter de se incomodar com mais crianças correndo pela casa, com mais um gasto?!

            Fiquei horrorizada! No final das contas, quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude está em casa, guardado por Deus assistindo à telenovela. Descobrindo que tudo aquilo que me ensinou é errado, que deveria ser o contrário. O Brasil inteiro assistiu àquele diálogo – que não foi barrado, contestado, mas confirmado por 15 longos minutos, talvez mais.

            Eu tive vontade de ir até lá e esbofetear a todos que participaram daquela bestialidade. Eles podem até dizer que eu estou por fora, ou então que estou inventando. Mas seja lá quem tenha escrito aquilo, dá pra dizer com segurança que essa pessoa ama o passado e não vê que o novo sempre vem.

Ele custa, mas vem.

 

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Paulo Finatto (crônica)

Publicado por epifabiconia em Abril 4, 2008

            Quem acessa as notícias do portal Terra deve ter reparado na manchete que trazia uma foto de membros do Greenpeace em frente a uma geleira, no sul da Argentina. A fotografia mostrava a dimensão do descongelamento em comparação com uma fotografia do mesmo bloco de gelo, em 1930. A geleira pode desaparecer nas próximas décadas se a temperatura terrestre não parar de aumentar.

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      Porém, é da Amazônia que vem a pior notícia. Duvido que alguém tenha prestado atenção, seja quando apareceu no Jornal Nacional, na Folha de São Paulo ou até mesmo na Zero Hora. O desmatamento cresceu além das previsões. As estatísticas estão aí, acessíveis para qualquer um, na Internet. O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Especiais) informou que em 2007 foram desmatados mais de três mil km2 somente nos dois últimos meses do ano. Estima-se que, para esse início de 2008, um número próximo a sete mil km2 de área verde tenha sido desmatado. Não podemos mais nos conformar com o que chamávamos de uma boa notícia em anos anteriores. O ritmo da devastação, que estava caindo, agora cresce assustadoramente.         

Sempre que alguém fala em “internacionalizar a Amazônia”, surge um para gritar “a Amazônia é nossa!”. Como assim, “é nossa”? Hoje a Amazônia é dos que invadem e devastam. Madeireiros, plantadores de soja, pecuaristas, mineradores; pequenos ou grandes empresários. A Amazônia seria “nossa” se o Governo tivesse condições de impor a lei, se conseguisse fiscalizar e punir quem promove o desmatamento clandestino.

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 Quando ocorre algum genocídio em qualquer lugar do mundo, o que pedimos é uma intervenção da ONU para evitar uma matança em proporções ainda maiores. O que acontece na Amazônia tem tudo para ser tão preocupante quanto um genocídio. A humanidade inteira é vitimada, enquanto nós, brasileiros, agimos como aqueles manifestantes estúpidos que orgulhosamente desafiam as tropas da ONU. Queremos que a Amazônia continue sendo “nossa”, desprezando os dizimados desse genocídio.           

Se governos estrangeiros e entidades internacionais, juntamente com governo do Brasil, pudessem intervir no sentido de fazer da floresta uma região de preservação ecológica mundial, a floresta seria mais “nossa” do que é atualmente. Outras soluções, sinceramente, não parecem ser soluções. Quem acha que o Ibama, o Exército e a Polícia Federal possuem condições reais para tomar conta de tudo aquilo? Por que mascarar o nosso fraco poder público com um nacionalismo que não engana ninguém?*           

A Amazônia não é uma prioridade para os brasileiros. Nós temos problemas terríveis a resolver antes – dentro de cada favela e debaixo de cada viaduto. Só que, como podemos constatar, a Amazônia é uma prioridade mundial.           

Não vamos acreditar naquela historinha infantil de que os americanos vão chegar um dia para roubar as “nossas” riquezas. Quem está acabando com elas e enriquecendo à custa de todo o planeta são os madeireiros, os pecuaristas e os plantadores de soja.            

A soberania que tantos defendem, simplesmente, não existe. Existiria se, um dia, pudéssemos impor a nossa vontade. O Governo, que bem gostaria de limitar o desmatamento, não é capaz disso. O que estamos esperando para trocar o nosso orgulho pelo bem do planeta?

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