UMA GERAÇÃO QUE NASCEU PÓSTUMA
Era uma tarde chuvosa. Daquelas tardes espessas e úmidas que somente existem sob o manto de Porto Alegre. A cidade dos odores se lavava e exalava apenas o da terra molhada. Ela caminhava e sentia um frio passando pelo seu corpo e um calor que a enchia por dentro. Era um coração batendo em seu ventre, o qual já amava enlouquecidamente.
A tarde do dia oito de novembro guardava uma surpresa feliz a um povo já muito sofrido. Ao passo que escurecia, uma neblina de interrogação ia se formando em torno do destino de uma história e de um sonho antigo já muito desgastados pela incompetência dos homens.
De repente uma dor. Ela se sentia perdida e só. Uma dor física que ela conhecia perfeitamente o motivo e já esperava, mas que a atingiu de forma tão intensa e interna, que pareceu como se alguém a desmontasse por dentro, destruísse seus sonhos.
Um estrondo. A primeira de muitas batidas que fariam ruir aquele símbolo de opressão. Pó. Um povo liberto que gritava, sorria. Sentia um dos momentos mais emocionantes que o mundo ocidental já vivera.
Uma mão pousou em seu ombro. Não se preocupe, tudo ficará bem. Silêncio.
O dia amanhecera limpo naquela cidade que já fora a morada de seus familiares. O concreto de ódio, que oprimia aquela gente, transformava-se em poeira que coloria o ar sob os reflexos do sol. Um mesmo povo não mais dividido por ideologias.
Um choro. Um sonho seu que nascia, enquanto outro, mal sabia ela, estava a ruir.
A notícia chega de Berlim: o desmantelamento de um sistema. A esperança de uma sociedade perfeita e igual havia desaparecido de seus pensamentos. Dera origem a uma geração que já nascera morta.