Epifabiconia

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Arquivo da categoria ‘letras’

Raíssa Nothaft

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

UMA GERAÇÃO QUE NASCEU PÓSTUMA

 

Era uma tarde chuvosa. Daquelas tardes espessas e úmidas que somente existem sob o manto de Porto Alegre. A cidade dos odores se lavava e exalava apenas o da terra molhada. Ela caminhava e sentia um frio passando pelo seu corpo e um calor que a enchia por dentro. Era um coração batendo em seu ventre, o qual já amava enlouquecidamente.

A tarde do dia oito de novembro guardava uma surpresa feliz a um povo já muito sofrido. Ao passo que escurecia, uma neblina de interrogação ia se formando em torno do destino de uma história e de um sonho antigo já muito desgastados pela incompetência dos homens.

De repente uma dor. Ela se sentia perdida e só. Uma dor física que ela conhecia perfeitamente o motivo e já esperava, mas que a atingiu de forma tão intensa e interna, que pareceu como se alguém a desmontasse por dentro, destruísse seus sonhos.

Um estrondo. A primeira de muitas batidas que fariam ruir aquele símbolo de opressão. Pó. Um povo liberto que gritava, sorria. Sentia um dos momentos mais emocionantes que o mundo ocidental já vivera.

Uma mão pousou em seu ombro. Não se preocupe, tudo ficará bem. Silêncio.

O dia amanhecera limpo naquela cidade que já fora a morada de seus familiares. O concreto de ódio, que oprimia aquela gente, transformava-se em poeira que coloria o ar sob os reflexos do sol. Um mesmo povo não mais dividido por ideologias.

Um choro. Um sonho seu que nascia, enquanto outro, mal sabia ela, estava a ruir.

A notícia chega de Berlim: o desmantelamento de um sistema. A esperança de uma sociedade perfeita e igual havia desaparecido de seus pensamentos. Dera origem a uma geração que já nascera morta.

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Pablo Corroche (história do colega)

Publicado por epifabiconia em Maio 12, 2008

NO LIMIAR DA INSANIDADE

 

De repente, senti-me imerso em escuridão. Poucas horas antes, quando tudo entrou em repouso, aquela luz parecia ser a única ligação que eu ainda tinha com o mundo real. Era como se ela fosse capaz de conduzir, a qualquer momento, alguém que me tirasse daquela situação.

Mas não importava o que eu fizesse, ninguém parecia me escutar. O espaço reduzia-se mais a cada minuto, e o ar ficava rarefeito. O silêncio era insuportável, a ponto de permitir que eu escutasse os meus sons internos, e temesse, por alguns momentos, que meu corpo explodisse para entrar em equilíbrio com o meio externo.

A noção de tempo havia se perdido, minhas idéias tornavam-se confusas, dispersavam-se aleatoriamente, no imenso vazio que tomava conta de tudo. A luz que fazia a minha conexão com o mundo exterior começou a irritar-me também. Iluminava e tornava as paredes mais estreitas. No entanto, o sufoco causado pela iluminação logo deu lugar a uma angústia ainda mais terrível: a luz apagou.

Eu sentia esvaírem-se os últimos resquícios de lucidez presentes em minha mente, senti-me entregue aos sabores da insanidade, perguntava-me onde estava e há quanto tempo. Tinha medo de pensar racionalmente, isto podia me trazer a perdição cabal, para tanto bastava que eu concluísse que estava louco. Por outro lado, a ausência de pensamentos também não era boa, podia ser definitiva. Comecei a duvidar que ainda encontrava-me ali, talvez estivesse louco realmente e já tivesse sido levado para outro lugar sem perceber.

Quando tudo parecia acabado, sem grandes perspectivas, o inesperado aconteceu. O elevador voltou a funcionar, como se nada tivesse acontecido, e eu estava são e salvo.

 

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Fabrício Basso (história do colega)

Publicado por epifabiconia em Maio 12, 2008

CHÁ SABOR… COCÔ

 

            Quando eu era bem pequeninha – ainda menor do que hoje – adorava observar o movimento dos adultos na cozinha. A pia, com o seu armário cheio de panelas e outros guardados, era um lugar interessantíssimo para uma criança de três anos. Não era só curiosidade: era a vontade de fazer o que os adultos faziam, imitar a mamãe, ela que sabia o lugar de todas aquelas coisas e vivia tirando panelas, bules e fôrmas de bolo lá de dentro, e depois sabia guardar tudo de novo, direitinho.

            Naquela época eu nem sabia andar direito, mas tinha muita vontade de aprender as coisas. Eu já tinha aprendido a usar o peniquinho – fora uma vitória e tanto! – e agora estava na hora de aprender a imitar a mamãe. A cozinha era um território exclusivo dela – ao menos, nunca vi meu pai mexer em panela alguma. Portanto, foi por lá que eu resolvi começar a minha nova fase de aprendizado.

            Um dia, a mamãe foi fazer um chá, e eu fiquei olhando da minha cadeirinha. Ela tirou o bule do armário, fez o chá, serviu, lavou tudo e depois guardou de novo no armário. Aí, eu tive o estalo: é no armário onde se guardam as coisas depois de usadas! Fiquei muito orgulhosa de mim mesma, por ter aprendido só observando, sem que ninguém tivesse me dito nada. E esperei o momento de mostrar à mamãe que eu também sabia guardar as coisas no armário, como ela. Depois, ela diria: “filhinha linda da mamãe! Tão pequena e tão inteligente!” Eu já estava até vendo o orgulho no rosto dela, contando para as vizinhas que a sua filhinha já sabia guardar coisas no armário. Que inteligeeente, diriam elas, com ciúmes.

            Alguns dias depois, uma amiga de mamãe veio visitá-la. Conversa vai, conversa vem, as duas vão para a cozinha, e mamãe lembra de pegar o bule para fazer um chá. Sem interromper a conversa, abre o armário e quase tem um ataque do coração. Fecha-o depressa, tentando disfarçar a vergonha. Eu tinha guardado o meu peniquinho ali dentro, um pouco antes da chegada da visita. Claro que eu tinha usado o peniquinho antes de guardar – afinal, eu lembrava bem, “primeiro usa, depois guarda” – e o cocô ainda estava lá dentro, fresquinho, para pavor de minha pobre mãe. Resultado: mamãe, morta de vergonha, teve que enrolar a pobre visita sedenta até a despedida. Sem chá.

            Dali a alguns dias, mamãe contou tudo para vovó, e as duas caíram na gargalhada. Ela me pegou no colo e, ainda rindo, me beijou e disse: “essa minha filha…”

            Não era bem o reconhecimento que eu esperava, mas pelo menos eu já mostrava talento para fazer os outros rirem. Tão novinha e tão talentosa!

 

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Guilherme Sommermeyer (história do colega)

Publicado por epifabiconia em Maio 12, 2008

ESTIGE

 

Demorei-me lendo a carta que havia recebido e mais ainda tentando compreender o que ela dizia. Saí de casa atrasado e tive de apertar o passo. Era uma típica madrugada de inverno e, como de costume, não cruzei com viva alma pelo caminho até o porto. Fiz o trajeto observando a densa neblina que pairava sobre a cidade e a forma como ela escondia o topo de algumas construções. Ao longo do cais, notei que ela escondia também a extensão do rio que, por sua vez, escondia o meu destino. Por sorte não me atrasara a ponto de perder a primeira viagem, não podia me dar o luxo de chegar novamente atrasado ao trabalho.

Cumprimentei o barqueiro e subi a bordo. Uma vez instalado no deque vazio, aproveitei para reler a carta. Ainda sentia a febril sonolência, e aquela mensagem continuava a se mostrar incompreensível para mim. Estávamos navegando há aproximadamente quinze minutos. O vento rasante parecia carregar parte de mim toda vez que batia contra a embarcação. Tentei ocupar a mente com os problemas do trabalho, com a promessa de mais um dia difícil, com a esperança de um desenrolar positivo dos fatos, mas, enfim, retornei ao conteúdo da carta. Mergulhado em profundas divagações, não notei o passar do tempo.

Estava absorto em pensamentos quando o barqueiro me chamou. Ele se mostrou muito constrangido ao longo da conversa, “Dezoito anos nessa vida e isso nunca havia me acontecido”, se desculpou repetidas vezes enquanto desligava o motor. Apontando para o rádio, afirmou que em torno de meia hora seríamos encontrados e escoltados de volta. Tendo me dito isso, ele se mostrou irredutível a respeito da devolução do pagamento.

Nunca havia me perdido.

Voltei ao deque e observei a densa neblina a minha volta. Demorei para perceber a tranqüilidade de toda aquela cena e, principalmente, o alívio que sentia naquela hora. Inconscientemente começava a torcer para que nunca nos encontrassem. Ali onde estava nenhum problema me alcançaria, nem mesmo o argumento da carta. Escorado no parapeito do barco, observei meu reflexo na água. Cores e sombras pintavam um retrato de outro mundo, cheguei a me perguntar se o rio não poderia estar repleto de fantasmas, que também o escolheram para se esconderem do mundo.

Talvez o mundo estivesse mais distante de mim do que imaginava.  Era possível que, em uma manobra equivocada, tivéssemos passado a um rio mais profundo. Senti um calafrio quando olhei a volta e só vi o cinza. A quem eu enganava? O sorriso desaparecera, as pernas hesitaram. Com as mãos nos bolsos, encontrei duas moedas frias. Era melhor pagar o barqueiro. 

 

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