Epifabiconia

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Luiz Lisboa (conto com base em notícia)

Publicado por epifabiconia em Maio 26, 2008

COLISÃO

 

Havia algo de diferente naquele dia. A rodovia não estava tão movimentada como de costume, ou eram seus olhos sem sincronia com o tempo real. O aroma da chuva se sobrepunha ao cansaço e ao suor maçante de mais um dia de trabalho.

Andava entre a brevidade, o destino e a esperança, no canteiro da rodovia, cercado pela corrida frenética dos carros  que iam e viam e seus pés que iam de encontro a lugar nenhum.

Mas quem era ele? Apenas pedestre. Esquecera-se de si, só guardava em seu âmago o caos e os sons perturbadores do transito. Aquela sua insignificância o consumia.  Ainda se perguntava, como se condenado a ser resto do nada, por que caminhar no meio de tudo?

Sentiu as buzinas e os sons perturbadores se afastarem, e seu coração batia mais forte dentro de seu cérebro aflito, perdera-se de si, ou era mais uma alucinação daquelas em que ele encara seus olhos. Mas os olhos não estavam lá. Eram apenas dois corpos metálicos e agonizantes a berrarem desgovernados.

Fechou-os e sentiu a chuva cair sobre seu rosto, em seu corpo todo. Parecia dissolver-se com a água. Almejava ser aquela água, descer pelos bueiros e percorrer a cidade pelo seu lado mais escuro, mas mesmo a água era algo coletivo, fluido universal. E ele era nada mais que um solitário.

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Bruna Nunes (notícia baseada em conto)

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

Mistério assombra bairro conservador da cidade

Casal de irmãos continua desaparecido

 

Continuam as buscas pelos irmãos desaparecidos. Já faz mais de 30 dias desde a última vez que Irene e seu irmão foram vistos, em uma quarta-feira por volta das onze horas da noite, próximo à Rua Rodriguez Pena. Após o alerta da vizinhança, a Polícia começou a investigação de seu paradeiro, contudo ainda não apresentou resultados significativos.

Os irmãos, ambos solteiros e com idade superior a quarenta anos, moravam na casa que pertenceu à família por várias gerações. Nunca foram vistos recebendo visitas ou outros parentes, saíam pouquíssimo da casa, no máximo aos sábados, quando o homem se ausentava algum tempo para fazer compras.

Algo que chamava muita atenção da vizinhança era o fato da faxina diária. Pareciam querer a residência sempre em estado impecável. A limpeza começava por volta das sete horas da manhã e se prolongava até o meio dia.

Não foram encontrados sinais de arrombamento, roubo ou sequer invasão. Uma quantia considerável de dinheiro estava guardada em um armário assim como algumas jóias.

Estão surgindo várias hipóteses que chegam a contestar da sanidade mental dos irmãos. Espera-se que a Polícia possa encontrá-los rapidamente, caso contrário os primos beneficentes da herança começarão a demolição da casa.

 

Notícia baseada no conto “A casa tomada”, de Júlio Cortazar.

 

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Priscila Zimmer (diálogo)

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

 

MELHOR FAZER O QUE ELE DIZ

 

            Eva, de avental, se preparava para fazer o jantar quando chegou Adão com uma mão suja de sangue e, segurando na outra, a galinha que acabara de matar.

 

Eva: Ah, não, pode levar essa galinha lá para fora para limpar, vai sujar toda minha cozinha!

Adão: Pô, ralo o dia todo, trago comida e ainda sou escorraçado. É isso que recebo em troca do meu sacrifício.  A janta já tá pronta, pelo menos?

E: Claro que tá. Só faltam o Caim e o Abel que devem estar brincando lá na rua. Esses guris estão impossíveis.

A: Tá, vou lá chamar.

 

            Abel entrou correndo seguido de perto por Caim que tinha os olhos arregalados, mostrava os dentes e o machado na mão. Adão observou tranqüilamente essa cena rotineira e sentou-se à mesa.

 

E: O que é isso guri? Larga já esse machado e vai lavar as mãos pra jantar. Ai, Adão, tem que conversar com o Caim, um dia ele acaba matando o irmão. Outro dia peguei ele tentando amarrar uma corda no pescoço do Abel enquanto dormia. Não sei a quem puxou. Tu, como pai, devia falar com ele sobre essas coisas.

A: E eu não sei? Mas é tu que fica em casa, mulher. Se alguma coisa acontecer vai ser culpa tua. Tu que mima demais esses guris. Mas, não sei… esse guri é muito esquisito, não sei se é meu filho mesmo, como tu disse, não teria a quem puxar.

E: Como assim não é teu filho. Tá louco? Esqueceu que somos os únicos aqui na terra? Nem se eu quisesse poderia ter te traído!

A: Sei não… tu ficou um tempão conversando com a serpente enquanto eu não tava junto. Sabe-se lá o que aconteceu nesse meio tempo.

E: Ah, só me faltava essa! Nem sendo a única mulher, com o único homem no mundo escapo de um acesso de ciúmes.

 

            Eva conferiu a limpeza das mãos das crianças, que acompanharam os pais à mesa. Todos juntaram as mãos e rezaram pelo alimento recebido e pela harmonia da casa. Depois da refeição, mais uma oração. Após o “Amém”, a casa toda tremeu e ouviu-se um vozeirão vindo do céu.

 

Deus: Óóóóóó de caaaaaasaaaaaaa!

E: Nossa, é ele!

Abel: Que é esse?

Caim: Com essa voz bem que deveria ser locutor de rádio.

E: O que é isso, guri? Que locutor de rádio? Esse é o Criador.

A: O Onipotente.

E: O Onipresente.

A: O Alfa.

E: O Ômega.

A: O Início.

E: O Fim.

Deus: Deixem de ser tão hipócritas! Vocês vêm com essa lenga-lenga de “Onipotente”, “Onipresente” e nem os filhos de vocês sabem quem eu sou. Eu sou “aquele cara” para quem vocês fazem oração, Caim.

Caim:  Ah! É o Deus.

Deus: Sim, sim, esse mesmo. Vim ver se vocês precisam de alguma ajuda.

A: Ajuda, ajuda como?

Abel: Tem a louça do almoço para lavar ali, ó!

E: O que é isso, guri? Deus lavar a louça! Que falta de respeito, não se fazem mais filhos como antigamente.

D: Tudo bem, Abel, vou lavar a louça.

A: Mas, Senhor… o senhor não veio aqui para lavar louça, certo? Qual a razão dessa visita inesperada?

D: Visita inesperada… pois é, talvez seja esse o motivo, não quero mais ser uma “visita inesperada”. Eu quero que vocês me deixem morar aqui.

Caim: Ah não, no meu quarto é que ele não pode ficar, mãe! E se ele roncar?

Abel: Pode dormir no meu, pode dormir no meu! Eu divido meus brinquedos também!

E: Como assim, morar aqui? O senhor não tem todo o céu para morar? Nos expulsou do Paraíso e ainda quer que a gente divida a casa com o senhor!

D: É, mas eu tenho visto que vocês andam com problemas de relacionamento. São os únicos da face da Terra e ainda brigam!

A: É, mas é esse o problema! Somos os únicos, não tem como fugir, temos que ficar 24h por dia juntos! Não dá nem para dar uma fugida para o bar!

E: Eu gosto de ficar com a minha família, mas eles vivem reclamando e arrumando coisas para fazer e não prestam atenção um nos outros.

Caim: O Abel é sempre o mais bonzinho, se eu fosse filho único não teria que competir com ninguém!

Abel: É! Ele não gosta de mim!

A: Olha, Deus, não nos leva a mal, mas não queremos mais um para participar das discussões.

E: É, mais um para comer, entrar com os pés sujos, deixar toalha molhada em cima da cama…

Caim: É, mais um que vai querer saber se tomei banho, lavei as mãos, penteei os cabelos…

D: Chega! Ou eu moro aqui ou pego mais uma costela do Adão e invento a sogra!

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Marcus Vinícius Pernes (conto baseado em notícia)

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

ALFREDO QUER COMER

 

 

            Alfredo veio costurando o engarrafamento, cortando os cruzamentos, subindo pelas calçadas e suando dentro do terno – até mesmo os semáforos eram todos Ritinha: o vermelho eram os lábios da Ritinha, o amarelo eram os cabelos da Ritinha, o verde eram os olhos da Ritinha. Largou o carro de qualquer jeito na vaga da garagem, nem lembrou de ligar o alarme, e subiu pelo elevador já tirando os sapatos, desafivelando o cinto, afrouxando o nó da gravata. Tinha sido um dia de cão, mas agora ele entraria pela porta do seu apartamento como um rei, um vencedor, e entraria na Ritinha como se aquelas pernas fossem os portões do paraíso.

            Não, não entraria. Ele demorou demais no trânsito, ou talvez tenha sido o elevador, ou o último cliente do dia. A verdade é que a novela já tinha começado. Lá estava Ritinha, sentada no sofá, olhando para Tony Ramos, e lá estava Tony Ramos olhando para Ritinha. Não dava para negar, eles tinham química, eles tinham feeling, eles se entendiam. Não dava para competir. Alfredo era um bom perdedor: engoliu a comida de ontem junto com a derrota de hoje e foi para o banho.

Ritinha não sabe, mas foi com ele.

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Matheus Hugo (conto com base em notícia)

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

MALDITA MURIÇOCA

 

Mudança: era disso que minha vida precisava. Vivia como uma múmia no meio da multidão, cercada naquele lugar. Sentia-me tão sozinha desde que minha mãe enlouquecera, coitada. Ela foi murchando aos poucos até desaparecer. Meu pai. Ah! Esse vivia por aí, de rodeio em rodeio, fazendo mutreta e ainda por cima dizia que aquele era o seu trabalho. Quando finalmente achei que tudo ia melhorar, pois conhecera um mulato musculoso por quem me apaixonei, estava enganada. Mulherengo! Muquirana! Fiz uma muvuca quando ele me chifrou com aquela holandesa, toda malhada, que não passava de uma mundana.

Mas um dia decidi que tudo seria diferente. Perseguiria meus sonhos deixando o preto e branco do passado para trás. Sairia em busca de uma vida multicolorida. Aquelas muralhas não me impediriam de conhecer o mundo. Queria viver de música, conhecer um muçulmano, comer musse de limão e virar musa de capa de revista.

Naquela manhã saí para dar início aos meus planos. A estrada era perigosa, à beira um penhasco, mas isso não me impediria de continuar minha jornada. Só não contava com aquela maldita muriçoca. Senti uma picada na perna e, quando me virei para olhar o que havia acontecido, resvalei num musgo e caí desfiladeiro abaixo. Mutilada sobre um carro, as últimas palavras que ouvi, antes de perder os sentidos, foram: “Não acredito nisso! Não acredito nisso! Uma vaca voadora!”.

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Marlova Mello (conto baseado em notícia)

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

                                                             SUICÍDIO

 

      Eram 19 horas, eu estava sentado em um bar na Andradas. Ouvi os seus passos e senti meu corpo todo arrepiar. Sentou-se ao meu lado e ficou me olhando com seus olhos mórbidos. Aterrorizado, levantei e sai, caminhei pela Andradas em busca de outro lugar para continuar bebendo. Escurecia cedo em Porto Alegre no inverno, e a avenida começava a ficar vazia, mas eu continuava em busca de um copo de vinho barato. Sentei com o copo na minha frente, ao meu lado um bêbado qualquer. Senti um alívio. De madrugada, a volta solitária para casa. Morava bem perto, mas a bebida, minha mais fiel companheira, tornava a caminhada de mais longa. Escutei um barulho, tive certeza de que o desgraçado me seguia. Percebi claramente seu sorriso cínico bem atrás de mim. Segurei a garrafa bem forte e me virei meio cambaleante; eu o vi ali parado, debochando de mim. Tentei atirá-la bem na cabeça dele, mas o infeliz era rápido, e tudo que consegui foi ver o último gole ser desperdiçado no chão. Gritei desesperado e só depois percebi que meu pé sangrava. Arrastei-me até minha casa. Podia pedir ajuda a minha mãe, mas desisti. Ela certamente viria com aquela conversa de que estou bebendo demais, de que não existe ninguém me perseguindo, que era tudo imaginação. Peguei na estante uma garrafa de uísque e me sentei no sofá. Esperava pelo fim daquela madrugada; aquele covarde não aparecia durante o dia. Adormeci por alguns minutos. Um ruído na cozinha me acordou; uma panela estava começando a pegar fogo. Joguei-a na pia, quando escutei sua risada sarcástica; ele estava ali se divertindo com a situação. O tormento teria fim! Decidido, peguei uma das facas que usava para cortar carne. Iria expulsá-lo definitivamente da minha vida. Ele estava na sala de pé com seu ar arrogante, me desafiando. Eu o fitei por algum tempo, enquanto pensava em uma forma de acabar com ele. Com toda coragem que me restava, fui na direção dele. Com a faca em punho, queria ver se ele manteria aquele jeito superior quando eu acertasse o seu peito. Começamos uma batalha. Rolamos no chão. Eu tentava acabar rápido com aquilo, ele se defendia como podia. Até que se fez um silêncio profundo. Eu senti um líquido quente escorrer do meu pescoço. Era sangue. Naquele instante, tudo ficou claro. Eu ainda segurava a faca, quando tive um súbito momento de lucidez. Não havia ninguém ali, tudo foi somente um devaneio de um bêbado. Lá fora o sol nascia despertando os moradores da capital para mais um dia, e a vida seguiria seu curso normalmente.

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Natalí Daltoé (conto baseado na história de um colega)

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

UM JOGO, UM ÔNIBUS, UMA NOITE E UM CINTO

 

Eu tenho 9 anos, mas já sei agir como meu pai. Cresci o suficiente para poder escolher minhas roupas, meu estilo musical e até literário. Eu espalho na escola que li clássicos em inglês e que ouço Beatles. Na verdade, gosto mesmo é do programa da Xuxa (mas isso fica só entre nós!).

Eu não tenho medos infantis. Para ser sincero, apenas uma vez senti medo… era um dia realmente frio. Eu e meu pai estávamos fardados de vermelho e branco, indo para o Beira-rio. Dia de clássico, como ele dizia. Fomos de ônibus – é difícil estacionar perto do estádio. Durante o jogo, meu pai gritava mais do que todos os outros colorados juntos. Em alguns momentos, cheguei a pensar que o pescoço dele iria explodir, pois mudava de cor constantemente: vermelho, roxo, verde… Eu estava me divertindo, mas, para falar a verdade, não enxergava muita coisa.

Pedi, várias vezes, dinheiro para comprar cachorro-quente, mas meu pai só me ouviu nos últimos minutos, quando já estava 4×0 para o Inter. A fila do cachorro era grande, e o tio demorava preparando, porque também queria assistir à partida. Ele terminou o meu no exato momento em que o juiz apitou o fim do jogo. Todos se amontoavam nos portões, e fui me metendo também. Desbravava aquele mar de pernas conseguindo passar sem muita dificuldade entre os vãos. Resolvi esperar meu pai na parada de ônibus onde descemos. Eu, como um bom homem, havia gravado bem o caminho. Na parada estavam muitos colorados e um cachorrinho sujinho e magrinho, a quem dei o resto do meu lanche e chamei de Toby. Só o refri ele não quis aceitar. Fiquei lá não sei por quanto tempo… até cansar. Todos os colorados já tinham entrado nos ônibus.

Decidi voltar para casa sozinho. Entrei no primeiro ônibus que passou. Escalei e pulei por cima da roleta. Passar por baixo é coisa de criança. Todos os bancos estavam ocupados. Depois de um tempo em pé, cansei e sentei no chão.

Não sabia até quando deveria ficar no ônibus. Não reconhecia nada que passava lá fora. Aproveitei que o motorista abriu a porta para uma vovozinha e pulei atrás. Desci imaginando que reconheceria algum lugar ou alguém, mas isso não aconteceu. Mas não estava perdido, eu sabia usar o orelhão! Era só encontrar algum. Perguntei a um velho sujismundo, deitado num banco, se ele sabia onde eu poderia encontrar um. Acho que ele não entendeu bem a pergunta, porque me ofereceu a cachaça que estava tomando. Eu poderia beber, afinal, meu pai bebe, e tudo que ele faz eu sei que também posso. Só não aceitei porque ele era desdentado, e eu teria que tomar no bico. Já estava bem escuro, e tudo que queria era estar em casa jogando Mário no super-nintendo.

Foi nesse momento que encontrei um policial de verdade. Contei todo o meu dia para o Jorge. O nome dele era Jorge. Ele perguntou onde eu morava, mas eu tinha acabado de me mudar para Porto Alegre, o endereço da velha casa de Guaíba não servia, e o novo eu não conseguia lembrar. Disse que talvez o nome da rua fosse General alguma coisa, mas o Jorge também deve ser novo por aqui, porque disse que não encontraria essa rua tão facilmente. Também não conseguimos telefonar porque na hora não conseguia lembrar bem se o número terminava com 515, 551, 155 ou 893. Mesmo assim o Jorge não desistiu e resolveu telefonar para as rádios da cidade, avisando que eu ficaria na delegacia esperando resgate.

Enquanto esperava pedi uma rosquinha. Vi num filme que os policiais adoram rosquinha. Mas o Jorge disse que não tinha e me deu um sanduíche com gosto de areia e um café preto. Me senti importante tomando o café preto. Já sentia até que podia coordenar a equipe do Jorge. Mas meu pai cortou meu barato de gente grande quando chegou na salinha do Jorge e foi direto puxando o cinto. E chorei por perceber que meu dia de adulto não passou de uma estripulia de criança para meu pai. Não tive medo do estádio cheio, de pegar ônibus sozinho, do frio, do bêbado, nem da noite, mas, naquele momento no fim do dia, me senti a mais medrosa e indefesa das criaturas.

 

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Rita Apoena (conto baseado em notícia)

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

CARRINHO


Eu não sei o que fazer. Um deles me olha, por entre os destroços e estende a mão para mim. Duas lágrimas descem, cortando a minha face em tiras, e despencam no chão. De nada servem. De nada me valem. O outro me olha com tanta esperança. Como se eu pudesse recolher aquele sangue e, nas nuvens mais brancas, desenhar um cata-vento, desenhar um coração. E eu não sei o que fazer. Eles me pedem com os olhos – e com a ponta dos dedos – que eu retroceda o tempo. Estanque o último sangue que puderam guardar na conchinha da mão. Brincadeira de passa-anel. Mas eu sou só um menino e não sei o que fazer quando os carrinhos de brinquedo batem de verdade. Quando o fim entra pelo ferimento, e a vida se esvai pelo asfalto,

 

 

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Taíse Machado (notícia baseada em conto)

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

FIM DA LINHA PARA O COBRADOR

Hoje, um mês após o último atentado de uma série de homicídios, foram presos Antônio de Souza – o Louco da Magnum, como ficou conhecido popularmente – e sua amante e cúmplice, Ana Palindrômica. Após um longo período de buscas, ambos foram encontrados na cidade de Criciúma/SC, onde Antônio confessou a responsabilidade pela seqüência de crimes – dentre eles, estupro e homicídio-, ocorridos no ano de 2007, no estado do Rio de Janeiro.

Segundo o próprio acusado, suas atitudes possuíam caráter de vingança; não aceitava as diferenças sociais e acreditava que, através desses atos, estaria cobrando uma possível dívida da sociedade para com ele e sua classe. Antônio se autodenominava “o cobrador”. Em seu depoimento, afirma: “Quando minha cólera está diminuindo, e eu perco a vontade de cobrar o que me devem, eu sento na frente da televisão e em pouco tempo meu ódio volta”.

Souza também alega a participação de Ana em seus atos: segundo ele, após conhecê-la, descobriu sua missão – mostrar ao mundo inteiro do que era capaz. Em seu arsenal havia uma Magnum com silenciador, um Colt Cobra 38, duas navalhas, uma carabina 12, um Tauros 38, um punhal e um facão. Dentre as primeiras vítimas estão: Dr. Carvalho (dentista,42 anos), um jovem tenista (assassinado enquanto dirigia sua Mercedes, no bairro Miguel Couto), um comerciante ilegal de armas de fogo, um casal da alta sociedade que voltava de uma festa na Vieira Souto e uma jovem de 25 anos, estuprada em seu próprio apartamento. Antônio refere-se a esses crimes como algo místico do qual se libertou ao conhecer Ana.

No dia 24 de dezembro de 2007, o casal cometeu o ato decisivo dessa série, no tradicional Baile de Natal ou “Primeiro Grito de Carnaval”. Após deixarem sua residência, um sobrado na rua Visconde Maranguape, dirigiram-se à zona sul, onde seria realizado o Baile. A bomba pela qual o casal se diz responsável, fez dezenas de vítimas, entre elas, turistas estrangeiros e executivos cariocas.

Numa entrevista realizada com a proprietária do sobrado, Dona Clotilde, ela afirma que Antônio demonstrava ser um bom rapaz, sempre muito dedicado e prestativo. Ele próprio afirma ser “justo”: quem vivia com sacrifício e trabalho árduo era poupado.

Antônio de Souza e Ana Palindrômica devem ser removidos para o presídio central do Rio de Janeiro ainda essa semana.

 

Notícia baseada no conto O Cobrador, Rubem Fonseca

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Raíssa Nothaft

Publicado por epifabiconia em Maio 19, 2008

UMA GERAÇÃO QUE NASCEU PÓSTUMA

 

Era uma tarde chuvosa. Daquelas tardes espessas e úmidas que somente existem sob o manto de Porto Alegre. A cidade dos odores se lavava e exalava apenas o da terra molhada. Ela caminhava e sentia um frio passando pelo seu corpo e um calor que a enchia por dentro. Era um coração batendo em seu ventre, o qual já amava enlouquecidamente.

A tarde do dia oito de novembro guardava uma surpresa feliz a um povo já muito sofrido. Ao passo que escurecia, uma neblina de interrogação ia se formando em torno do destino de uma história e de um sonho antigo já muito desgastados pela incompetência dos homens.

De repente uma dor. Ela se sentia perdida e só. Uma dor física que ela conhecia perfeitamente o motivo e já esperava, mas que a atingiu de forma tão intensa e interna, que pareceu como se alguém a desmontasse por dentro, destruísse seus sonhos.

Um estrondo. A primeira de muitas batidas que fariam ruir aquele símbolo de opressão. Pó. Um povo liberto que gritava, sorria. Sentia um dos momentos mais emocionantes que o mundo ocidental já vivera.

Uma mão pousou em seu ombro. Não se preocupe, tudo ficará bem. Silêncio.

O dia amanhecera limpo naquela cidade que já fora a morada de seus familiares. O concreto de ódio, que oprimia aquela gente, transformava-se em poeira que coloria o ar sob os reflexos do sol. Um mesmo povo não mais dividido por ideologias.

Um choro. Um sonho seu que nascia, enquanto outro, mal sabia ela, estava a ruir.

A notícia chega de Berlim: o desmantelamento de um sistema. A esperança de uma sociedade perfeita e igual havia desaparecido de seus pensamentos. Dera origem a uma geração que já nascera morta.

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